A insustentável imparcialidade da mídia brasileira.

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Milton Santos em seu livro “Por uma outra globalização” aponta o papel despótico da mídia e seu domínio pelo Estado e algumas empresas. Para Santos “o que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde.” A análise faz-se impressionantemente atual, mas cabe a pergunta: como se comporta a mídia brasileira no atual cenário político e econômico no país?

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A mídia brasileira, assim como qualquer mídia tem um papel destaque na sociedade atual, com a função de boca, olhos e ouvidos conecta os seres centrados em suas vidas cotidianas aos mais diversos e longínquos episódios. Com a comida na mesa, o sujeito assiste ao Jornal Nacional lamentando a fome, a dor física, o sofrimento psicológico passado por crianças na Síria. Do sofá ele exclama indignado sobre a alta do preço da gasolina, e culpa o governo. Distante dos centros de decisões o sujeito se torna um espectador da própria sociedade, usando e abusando das informações jornalísticas para formar sua opinião sobre os rumos da política, da economia, da sociedade.

Nessa onda o que temos visto ao longo dos anos é uma demonstração clara do poder da grande mídia em conduzir a opinião pública do país. Os fatos a serem elencados são muitos, mas o que chama a atenção, ou ao menos deveria chamar, são os diferentes enquadramentos dados a determinadas notícias. Um determinado fato pode ser interpretado de diferentes maneiras, um incêndio onde 200 pessoas sobrevivem e 200 são fatalmente vitimadas pode significar tanto um excelente trabalho dos bombeiros, como seu total fracasso. A nomeação de um Ministro do executivo federal pode ser colada nesses termos também. Exemplo, o forte alarde feito na nomeação de Lula – investigado por se beneficiar de recursos desviados da Petrobras – por Dilma Rousseff para o cargo de Ministro da Casa Civil, não foi ouvido com a mesma intensidade quando o ainda presidente interino Michel Temer nomeou sete ministros citados na operação Lava Jato.

Longe de querer taxar um grupo político como santo, ou honesto e o outro como o vilão da novela das 21h, mas não é sensato que uma sociedade tome como normal um posicionamento midiático que não seja feito de maneira declarada. Não é segredo ou novidade que a imparcialidade seja algo que beira a utopia, mas basta um leve olhar atento para percebermos que esse não é, nem nunca foi, o ponto forte da mídia oligopolista que reina no Brasil.

A formação da grande mídia no Brasil

Com a proibição de jornais, panfletos e afins, no período colonial foi somente com a criação da Imprensa Régia em 1808 que veículos nacionais de notícias se instauram. Pouco a pouco a mídia escrita vai ganhando corpo no Brasil com a abertura de diversos jornais, como os Diários do Rio de Janeiro e de Pernambuco e O Estado de São Paulo.

Restrito à pequena parte da população alfabetizada os jornais impressos veem o rádio ganhar espaço dos anos 1930 em diante. Reunindo entretenimento e informação o rádio democratiza um pouco mais a mídia nacional. Necessitando apenas de um aparelho receptor esse veículo de comunicação mostrou-se útil para fins políticos, como fez Vargas criando a Voz do Brasil numa tentativa de divulgar suas políticas e promover uma integração nacional.

O sucesso das rádios só seria abalado com a chegada da TV, nos anos 1950. Nos anos dourados no Brasil a TV TUPI se destacou como a pioneira do segmento. Criada por Assis Chateaubriand a emissora de TV era apenas parte do poderoso império midiático de Chateaubriand, que chegou a ter 34 jornais e 36 emissoras de rádio, 18 estações de TV, além da mais popular revista semanal, O Cruzeiro. Jornalista, empresário, político, advogado e escritor, Chateaubriand foi chamado de Cidadão Kane brasileiro, controlando um forte aparato midiático que desde os tempos de Getúlio Vargas, influenciava fortemente a opinião pública nacional. Contudo, quisera a história que o “título” de Cidadão Kane brasileiro fosse para as mãos de outro magnata das telecomunicações, Roberto Marinho.

Muito além de “Muito além do Cidadão Kane

Em 1993, o conhecido por muitos como Dr. Roberto Marinho, presidente da poderosa Organizações Globo, contestava judicialmente a exibição do documentário inglês “Brasil: Muito além do Cidadão Kane” produzido pelo Channel Four. Proibido no Brasil, o documentário inspirava-se na grandiosa produção cinematográfica de Orson Welles intitulada de “Cidadão Kane”. O filme clássico dos anos 1940 que usou câmeras altas ou baixas para trabalhar a grandiosidade ou inferioridades das personagens é uma biografia camuflada de William Randolph Hearst poderoso magnata das comunicações americanas do início do século XX.

A comparação entre Kane e Marinho feita pelo documentário mostra o tamanho do império midiático que o Dr. Roberto construiu. O jornal O Globo herdado de seu pai, tornou-se apenas parte de um grande conglomerado que tem a Rede Globo de televisão como seu maior expoente. Cobrindo os mais importantes fatos ocorridos no país, ou pelo menos aqueles que a emissora considera como mais importantes, a Rede Globo, já deu diversas declarações, muitas delas proferidas por William Bonner, sobre o jornalismo imparcial da emissora. Porém, na prática episódios históricos como o apoio à Ditadura Militar de 1964, e o debate editado das eleições de 1989, que favoreceram ao candidato Fernando Collor de Melo, contradizem os discursos do apresentar do JN.

Mais recentemente a intensa cobertura da Lava-Jato – com direito à vazamentos de processos judiciais que deveriam correr em sigilo – e a cobertura quase canarvalesca das manifestações pró impeachment deixam claro que a Globo tendencia o seu telespectador a um determinado posicionamento político e ideológico.

O quarto poder no Brasil

É preciso atentar ainda, que as Organizações Globo não estão sozinhas. A grande mídia brasileira caracteriza-se por um oligopólio que é regido por um grupo de famílias. Deixando mais claro, o grande fluxo de notícias veiculadas a milhões de pessoas é controlado por mais ou menos uma dúzia de pessoas. Os já mencionados Marinhos das Organizações Globo, os Civitas do Grupo Abril, os Mesquitas de O Estado de S. Paulo, e os Frias, da Folha de S.Paulo exemplificam o controle familiar midiático brasileiro.

Diferente do que acontece nos EUA, onde a imprensa é regulada por uma agência autônoma, aqui é permitido a uma mesma pessoa ou grupo econômico a posse de diferentes veículos de comunicação. Além disso emissoras de TV e rádio são concessões do Estado, a peculiaridade é que o Congresso tem a prerrogativa, junto com o executivo, de deliberar as outorgas ou renovações. Assim, não é estranho ver que muitas emissoras de TV e rádio estão nas mãos de políticos tradicionais como os Sarney no Maranhão e os Magalhaes na Bahia.

A necessidade de mudança

Qualquer democracia moderna que se preze adota um sistema de divisão de poderes em que haja equilíbrio entre os mesmos. À parte da organização do Estado, a grande mídia constitui-se como um poder paralelo ao Executivo, Legislativo e Judiciário, sem fazer parte do sistema de pesos e contrapesos que regem os três poderes.

Esclarecer, e não confundir ou manipular, é o verdadeiro papel da mídia. Se oferecer uma notícia imparcial mostra-se complicado, dado que somos seres políticos e dotados de ideologias, que a parcialidade seja declarada, afinal nada é mais democrático do que pessoa, empresa ou governo, possam ser livres para expressar o que pensam.

legenda Marcio

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