A RÚSSIA E O FUTEBOL: UMA HISTÓRIA DE POLÍTICA E PAIXÃO

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A Rússia sediará a Copa do mundo de 2018, em meio a polêmicas envolvendo o governo de Vladmir Putin, acusações de manipulações nas eleições e influência nas eleições de Donald Trump e no Brexit o contexto político é turbulento. Mas não se assuste, a turbulência e o futebol sempre andaram lado a lado nas terras geladas do leste como veremos no texto.

A história do futebol na Rússia começa como em qualquer outro lugar em que o esporte bretão foi introduzido, levado pelos ingleses logo se tornou uma febre entre a população, especialmente a mais pobre (pela facilidade e elos poucos recursos necessários para a prática) mas um fator diferencia  sua trajetória “natural”, a Revolução Russa de 1917.

 

Time amador no Império Russo
Time amador no Império Russo.

Os primeiros entusiastas do esporte (cerca de 8 mil registrados oficialmente no Império Russo) eram justamente do grupo mais descontente com os rumos do Czar Nicolau II, jovens, trabalhadores urbanos que sofriam com a instabilidade econômica e falta de atenção por parte do regime.

É justamente essa camada que da corpo ao movimento bolchevique, o governo revolucionário utilizou o futebol como forma de propaganda interna do regime.  A valorização esporte era visto como essencial para o fortalecimento da população, uma forma de auxilio na saúde pública e também como uma preparação militar.

Com a consolidação da URSS em 1922  o futebol passa a ter papel central na política do estado. As implicações dos processos econômicos e políticos o final dos anos 1920 e do início do anos 1930 foram extremamente importantes para o movimento esportivo, para isso é que os modelos de organização esportiva soviética foi formada, entidades nacionais, escolas de esportes e um audacioso programa nacional de educação física.

Cartaz soviético de incentivo ao futebol, ao fundo os rostos de Lênin e Stálin
Cartaz soviético de incentivo ao futebol, ao fundo os rostos de Lênin e Stálin.

A nova sociedade viu o florescimento de todas as maneiras de esportes competitivos com apelo junto ao público, o futebol o maior deles, nos campeonatos os melhores jogadores eram considerados heróis, representavam o triunfo soviético. Mais que recreação e diversão à população urbana (que crescia rapidamente) o futebol era uma política de estado que ideologicamente buscava valorizar a sua origem e procurava se expandir para o mundo.

O estatismo do esporte levou a fundação e reformulação de diversas equipes, O CSKA era fomentado pelo exército, enquanto o Lokomotiv tinha o apoio dos ferroviários. Spartak, Torpedo, Zenit e Krylya Sovetov representavam as indústrias de alimentação, automóveis, eletricidade e aviões, afirmar o caráter proletário do esporte era essencial.

Dínamo de Moscou, primeiro campeão soviético em 1936, com o fim da URSS só faturaria um nacional, a Copa da Rússia de 1994/95.
Dínamo de Moscou, primeiro campeão soviético em 1936, com o fim da URSS só faturaria um nacional, a Copa da Rússia de 1994/95.

Fugindo dos padrões olímpicos e da rigidez de outras modalidades, o futebol valoriza a genialidade individual e essa individualidade passou ser monitorada pelo governo. Um habilidoso atacante era antes de tudo filho da revolução, fiel ao seu povo, sua individualidade deveria servir ao coletivo.

A Guerra e a resistência
Durante a 2º Guerra Mundial o futebol soviético foi mais uma vez protagonista, com o famoso “Jogo da Morte”. A ocupação Nazista em Kiev gerou uma das mais emocionantes histórias do esporte, ex-jogadores presos em campo de batalha formaram secretamente um time, o F.C. Start, disfarçados de simples operários disputou nove partidas contra times ligados ao regime nazista, um dos principais nomes do time era Makar Goncharenko, artilheiro do campeonato soviético.

Os triunfos do Start eram um alento para a população oprimida pela ocupação nazista e uma vergonha para o III Reich, o time venceu todos os jogos, inclusive o jogo que “deveria perder”. Os alemães envaram para Kiev o seu melhor time, formado por integrantes da temida força aérea, invencível em todos os seus amistosos até então. Ao fim do 1º tempo os alemães estavam perdendo  a partida por 3 x 1, um representante da SS teria entrado no vestiário do time adversário e avisado: se vencessem a partida receberiam uma severa punição. O jogo terminou 5 x 3 para o Start, descumprindo as ordens nazistas, humilhando o melhor time de Hitler.

F.C. Start (de branco) contra o time formado pelo exército alemão, no famigerado “jogo da morte”
F.C. Start (de branco) contra o time formado pelo exército alemão, no famigerado “jogo da morte”.

Uma lenda envolta todo esse episódio, durante muito tempo se defendeu o relato de que ao fim da partida todos os jogadores foram fuzilados, mas sabemos hoje que apenas 4 jogadores não sobreviveram ao fim da guerra, é certo que o time foi desmanchado e seus integrantes enviados para campos de concentração e prisões.

Essa história fomentou ainda mais a máquina estatal soviética que ao fim da 2º Guerra idealizou uma seleção que pudesse encantar o mundo com o seu futebol e levar a mensagem de superioridade do regime comunista sobre o regime capitalista. Em 1952 o projeto soviético estava pronto.

Seleção soviética em amistoso na Argentina
Seleção soviética em amistoso na Argentina.

Em 2 amistosos venceu a então campeão do mundo, Alemanha Ocidental, por 3 x 2 e 2 x1, o resultado chocou o mundo e assim surgia uma potência no esporte mais popular do mundo, os primeiros passos da Guerra Fria davam uma grandiosidade ainda maior, os EUA não tinham uma seleção capaz de se firmar no futebol (e tentaram de muitas formas deslegitimar o esporte internamente), cabia então aos ingleses e franceses esse o papel de bater de frente com os soviéticos.

Em 1956 a seleção olímpica soviética sagrou-se campeã do torneio vencendo a Iugoslávia (também comunista) o mundo se rendia a competência futebolística do seu lado vermelho. A aguardada Copa do Mundo de 1958 era ansiosamente aguardada, os soviéticos eliminaram a Inglaterra na fase de grupos mas foi desclassificadas pela excelente seleção da Suécia (que foi derrotada por Pelé na final, dando nosso primeiro título mundial).

Brasil x URSS, Copa do mundo de 1958 (vitória de 2 x 0 para Brasil, gols de Vavá) o científico futebol soviético contra a magia do improviso do futebol canarinho.
Brasil x URSS, Copa do mundo de 1958 (vitória de 2 x 0 para Brasil, gols de Vavá) o científico futebol soviético contra a magia do improviso do futebol canarinho.

Incomodada com a derrota na Copa do Mundo de 1958 o esquadrão soviético se reestrutura para a primeira edição da Eurocopa, realizada na França em 1960. Comandados pelo ex-jogador Gavriil Kachalin, o time soviético contava com Lev Yashin no gol, Igor Netto no meio campo e Valentin Ivanov e Viktor Ponedelnik no ataque, a expectativa era alta, Espanha, Iugoslávia e  França apareciam como favoritas para o torneio.

A URSS venceu as seleções da Hungria e da Tchecoslováquia nas fases eliminatória, o aguardado encontro com a seleção espanhola não ocorreu, o ditador espanhol Francisco Franco retirou sua seleção da competição como forma de retaliação ao regime soviético, desse modo disputou a final contra a Iugoslávia, vencendo por 2 x 1, sagrando- se como a primeira campeã da Eurocopa.

Seleção campeão da Eurocopa de 1960.
Seleção campeão da Eurocopa de 1960.

Nos campeonatos mundiais os conflitos eram constantes, a URSS alegava (muitas vezes com razão) sobre as constantes falhas e favorecimentos da arbitragem aos seus adversários durante os jogos, ficou em 4º lugar no mundial de 1966 e chegou em mais duas finais europeias. A politica não se afastava do futebol, na repescagem para a Copa de 1974 os soviéticos se negaram a jogar no Estádio Nacional de Santiago, utilizado para tortura e prisão dos opositores do regime de Augusto Pinochet.

URSS x Turquia
URSS x Turquia

Os soviéticos no total participaram de 7 copas do mundo, conquistaram 2 ouros olímpicos (um  lamentavelmente sobre o Brasil de Romário, Taffarel, Bebeto, Neto e Mazinho), e três ganhadores da Bola de Ouro, no seu plantel tiveram Lev Yashin, o Aranha Negra, para muitos o melhor goleiro da História.

Romário disputando a bola com a zaga soviética. final olímpica de 1988.
Romário disputando a bola com a zaga soviética. final olímpica de 1988.

Com a dissolução da União Soviética a participação em copas do mundo e em jogos olímpicos dos países a compunha vem sendo até então modesta, a Ucrânia conquistou a prata nos jogos de 2001 e parou nas quartas de finais em 2006, já a Rússia tem como destaque a Euro de 2008, onde foi eliminada pela Espanha na semifinal (campeão do torneio).

O futebol, mesmo como máquina de propaganda soviética ou como forma de resistência política tem um papel fundamental na História da Rússia, ainda que não tenha alcançado o merecido status de campeão mundial, ou gerado o impacto que a União Soviética causou geopoliticamente. A sua trajetória nas terras geladas do extremo leste europeu é fundamental para o desenvolvimento do esporte em nível mundial.

Lev Yashin, o Aranha Negra.

Lev Yashin, o Aranha Negra.

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