AFINAL, FUTEBOL É OU NÃO É UMA FERRAMENTA POLÍTICA? A HISTÓRIA DAS ÁFRICAS NOS DIZ QUE SIM.

A primeira Copa do Mundo aconteceu em 1930, em Montevidéu, capital do Uruguai. A competição contou com quatro seleções europeias (Iugoslávia, França, Bélgica e Romênia), duas norte-americanas (Estados Unidos e México); as outras sete seleções eram todas da América do Sul: Argentina, Brasil, Peru, Chile, Paraguai, Bolívia e, claro, o anfitrião Uruguai, campeão desta edição. Mas e a África e a Ásia? Nos anos 30, o mundo ainda estava sob o manto do Imperialismo Europeu, de tal modo que boa parte destes dois continentes eram colônias. Para se ter uma ideia, dos atuais 54 Estados-nação africanos, apenas Libéria, Etiópia, Egito e África do Sul não eram colônias (Etiópia, entretanto, ficaria um período de tempo sob domínio italiano, durante a Segunda Guerra Mundial).

 

Figura 1 - Pôster oficial da Copa de 1930
Figura 1 – Pôster oficial da Copa de 1930.

Logo, como poderiam existir seleções nacionais para representar estes Estados que nem independentes eram? Para entendermos melhor a história do continente africano com o futebol, podemos olhar para a própria história das copas do mundo. O Egito foi a primeira seleção da África a participar, e foi logo na segunda edição, de 1934, uma vez que ele faz parte do escasso grupo de Estados-nação “independentes” – que no caso do Egito, ainda sofria fortíssima influência britânica. Depois disso, a África só voltaria a ter um representante na nona edição da Copa do Mundo da FIFA, quando o Marrocos foi ao México em 1970.

Figura 2 - Seleção do Egito na Copa do Mundo de 1934.
Figura 2 – Seleção do Egito na Copa do Mundo de 1934.

Entretanto, a competição anterior a essa do Marrocos, a de 1966, foi marcada por um protesto das seleções africanas. Dezesseis nações deste continente boicotaram o torneio em desacordo ao Imperialismo exercido pela FIFA, que favorecia a América e a Europa, uma vez que, em uma resolução de 1964, a Instituição demandava que o vencedor da zona africana enfrentasse o vencedor da zona asiática ou da zona oceânica para se classificar à fase final, enquanto os africanos acreditavam que vencer sua zona deveria bastar por si só para ter um lugar na competição, como é hoje.

Ou seja, a FIFA favorecia os continentes americano e europeu ao invés dos africano, asiático e oceânico. Só para que se tenha noção, naquela mesma copa de 66, dez seleções europeias disputaram o torneio, junto a cinco americanas e uma asiática (a Coréia do Norte, caso este que vale a pena ser estudado ainda). O mais simbólico disso tudo é o fato dos torneios mundiais dos anos 60 não terem nenhuma seleção africana, uma vez que esta década é conhecida como a “Década Africana”, em referência aos processos de independência por toda o continente, marcando o fim do neocolonialismo europeu iniciado no final do século XIX.

Ao contrário do outro evento da FIFA, a Copa Africana de Nações (CAF) representa bem esse processo de independência.  No fim dos anos 50, teremos as duas primeiras edições deste torneio (1957 e 1959), com 3 seleções participando: Egito, Sudão e Etiópia, seleções de países já independentes. A partir dos anos 60, a CAF começa a aumentar o número de seleções inscritas e participantes, indo posteriormente para 4 participantes, depois 6, 8, 12, até chegar no atual 16 participantes (o número de seleções inscritas chegou, em 2017, a 51, basicamente todo o continente).

Figura 3 - Imagem oficial da CAF de 2017.
Figura 3 – Imagem oficial da CAF de 2017.

Vale destacar que o único ano que a CAF teve uma queda no seu número de participantes foi 2010, quando o Togo deixou a competição após rebeldes separatistas de Angola – local que sediava a copa naquele ano – atacarem seu ônibus. O ataque ocorreu por conta do grupo, Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC), estar enfrentando o governo angolano na época. Mais uma vez a história intervindo fortemente no futebol africano. O ataque ganhou mais atenção da mídia ainda pelo fato do grande astro do futebol de Togo na época, Emmanuel Adebayor, estar presente no ônibus. Ele, que acabava de sair do Arsenal por uma oferta milionária para o Manchester City, fez questão de destacar a gravidade do atentado que deixou 3 mortos e 9 feridos.

Figura 4 – Mapa da Província de Cabinda, de Angola, localizada entre o Congo e a República Democrática do Congo (no mapa, representado como Zaire).
Figura 4 – Mapa da Província de Cabinda, de Angola, localizada entre o Congo e a República Democrática do Congo (no mapa, representado como Zaire).

Então, como pode ser visto, a todo momento, a CAF reflete a realidade do continente africano. Outro importante exemplo é que o maior campeão da competição é o Egito, ou seja, a nação mais vitoriosa do torneio reflete a realidade deste que é um dos Estados-nação há mais tempo consolidado do continente, e cujo processo de formação nacional menos sofreu golpes e guerras civis que o restante. Porém, a seleção dos Faraós, como são conhecidos, não está isenta de processos históricos refletidos em sua realidade; basta olhar para o atual craque Mohamed Salah, jogador do Liverpool e melhor atleta da temporada 2017-2018 do campeonato inglês, a Premiere League. Recentemente, nas eleições presidenciais do Egito (2018), o atacante ficou em segundo lugar, com mais de 700 mil votos. Mas um fato é interessante: ele não se candidatou a presidência. Isso demonstra como futebol e política estão intimamente ligados. O Egito, após a Primavera Árabe, viu seu país sem muitas opções, em meio a grupos extremistas, e o surgimento de um atleta de altíssimo nível, como Salah, fazendo uma das melhores campanhas da temporada, e comemorando gols como muçulmano que é, representa muito para um povo que necessita de esperança.

Figura 5 - Ficha de votação com o nome de Mohamed Salah.
Figura 5 – Ficha de votação com o nome de Mohamed Salah.
Figura 6 - Mohamed Sala (egípcio), à esquerda, e Sadio Mané (senegalês), à direita, comemorando um gol pelo time Liverpool, da Inglaterra.
Figura 6 – Mohamed Sala (egípcio), à esquerda, e Sadio Mané (senegalês), à direita, comemorando um gol pelo time Liverpool, da Inglaterra.

O mesmo pode ser destacado no caso do atacante marfinense Didider Drogba, que ajudou a diminuir uma guerra civil em seu país, ao classificar sua seleção para a Copa do Mundo de 2006 e obter o vice-campeonato da CAF. Tudo começa em 2003, quando forças rebeldes de Burkina Fasso invadem a Costa do Marfim e a dividem em duas. O conflito se estende até 2006, época em que Drogba estava em alta na Inglaterra, atuando pelo Chelsea. A partir dessa mídia que o jogador tinha, o atacante usou sua imagem para pacificar o conflito entre 2006 e 2007, fazendo, inclusive, um jogo amistoso pela seleção em território marfinense, em que ambos os lados do país se reuniram para assisti-lo. Isso era uma concretização do Acordo de Ouagadougou.

Figura 7 – Após a classificação da Costa do Marfim para a copa de 2006, Drogba (ao centro) pede que o povo abaixe as armas.
Figura 7 – Após a classificação da Costa do Marfim para a copa de 2006, Drogba (ao centro) pede que o povo abaixe as armas.
Figura 8 – Povo marfinense carregando imagem de Didier Drogba entre 2006 e 2007, durante o processo de pacificação do país.
Figura 8 – Povo marfinense carregando imagem de Didier Drogba entre 2006 e 2007, durante o processo de pacificação do país.

Assim como esses citados, a África tem inúmeros casos de grandes jogadores de futebol que acabam por inserir-se no contexto político, até mesmo porque, diferentemente do que andam dizendo por aí, futebol e política tem tudo a ver. Se fosse o contrário, jamais teríamos casos como o de George Waeh, único africano a receber a Bola de Ouro, em 1995, e que hoje é presidente da Libéria, sendo eleito no final de 2017. Ou então de Rachid Mekloufi, craque argelino que abandonou a seleção da França em 1958 para jogar pela seleção da Frente de Libertação Nacional (FLN), grupo argelino que lutava pela libertação de seu país contra o colonialismo francês. Muitos dizem, inclusive, que o fato da França ter perdido na semi-final daquela copa para o Brasil foi justamente a ausência do Makloufi. Assim sendo, Mekloufi, Weah, Drogba, Salah e tantos outros jogadores africanos vão nos ensinando que futebol é sim uma ferramenta política, e que sim, ele reflete (e muito) a realidade de seus países pelos quais eles tanto lutam e representam.

Figura 9 – George Weah, em 1995, levantando a Bola de Ouro. Mais de 20 anos depois, e ele será eleito presidente da Libéria.
Figura 9 – George Weah, em 1995, levantando a Bola de Ouro. Mais de 20 anos depois, e ele será eleito presidente da Libéria.
Figura 10 – Rachid Mekloufi, importante símbolo para a Argélia dentro e fora dos gramados.
Figura 10 – Rachid Mekloufi, importante símbolo para a Argélia dentro e fora dos gramados.

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