“Aquarius”: uma visão da sociedade brasileira

Cinema Nacional e sua realidade

O cinema brasileiro tem um grande valor no cenário internacional, afinal, fizemos história com o Cinema Novo nas décadas de 50 e 60, mostrando ao mundo, nas palavras do grande diretor Glauber Rocha, que bastava “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” para se fazer um filme. Durante os anos 90, entretanto, Fernando Collor de Melo, ao extinguir a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes Sociedade Anônima, criada em 1969, para produzir e distribuir filmes nacionais), diminuiu muito as chances de um filme brasileiro ser produzido, e consequentemente, distribuído, em solo nacional. O baque foi tão grande que apenas 0,4% de toda a produção cinematográfica que passava pelo Brasil eram de filmes nacionais. Mas, o fim dos anos 90 vieram, e tivemos o que ficaria conhecido como Cinema de Retomada. Fernando Henrique Cardoso tentou incentivar ainda mais a reestruturação do cinema nacional ao criar a Secretaria do Audiovisual e a Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2001.

A partir deste ponto, o cinema nacional voltou a se desenvolver. Tivemos obras incríveis como “Central do Brasil” (1998), Abril Despedaçado (2001) e “Cidade de Deus” (2002), obras de cineastas que se consagraram no cenário internacional, como Walter Salles e Fernando Meirelles. Ademais, ao que parece, uma nova leva de diretores nacionais vem surgindo, com um novo estilo de filme. Obras como “Que horas ela volta?” (2015), “Boi Neon” (2015), “Mais forte que o mundo” (2016), “O menino e o mundo” (2013), “Hoje quero voltar sozinho” (2014) e “Beira Mar” (2015) representam uma nova cara do cinema brasileiro, mais poético, retratando uma outra realidade brasileira, mas ainda brasileira.

 

Kleber Mendonça Filho

É justamente nesse contexto que se insere o diretor e o filme de que iremos tratar nesse momento: “Aquarius” (2016), de Kleber Mendonça Filho. A começar pelo diretor, valeria destacar suas obras anteriores, como os curtas-metragens “Vinil Verde” (2004) e “Recife Fria” (2009), além do seu aclamado primeiro longa-metragem “O Som ao Redor” (2012) – que também se encaixa na lista anterior de filmes inovadores quanto o modo de retratar a realidade nacional. Vale destacar ainda que Kleber Mendonça Filho recebeu vários prêmios internacionais com esse seu primeiro filme, dentre eles, o importante prêmio da Associação de Críticos de Toronto.

 

“Aquarius” e as repercussões

Já quanto a “Aquarius”, seu segundo filme, lançado em 2016, é necessário criar uma contextualização prévia, afinal, esta obra trouxe consigo várias repercussões, tornando-a conhecida antes mesmo de seu lançamento oficial. A começar pela exibição do filme no festival de Cannes (França), um dos maiores do mundo, onde o diretor e sua equipe fizeram protestos ao processo de impeachment que vinha ocorrendo no Brasil, com cartazes contendo frases como “Um golpe está acontecendo no Brasil”, “54 milhões de votos foram queimados”, “Dilma, vamos resistir com você” e “Fora Temer”. A partir daí, iniciou-se uma saga de problemas no cenário brasileiro em relação ao filme, como a classificação indicativa ser de 18 anos, muito maior do que a recebida em todos os outros 60 países em que foi exibido. Desse modo, muitos críticos passaram a falar sobre um “boicote” e uma “censura” do até então governo interino de Michel Temer.

Além disso, no momento de criar a Comissão da Secretaria do Audiovisual, órgão que indica o filme nacional a representar o Brasil numa possível indicação ao Oscar, o Ministério da Cultura acabou por nomear, como um dos nove membros, Marcos Petrucelli, um jornalista que já havia declarado publicamente o seu desgosto pelo filme, pela equipe e pela atitude deles no Festival de Cannes. Após isso, vários diretores tiraram seus filmes – como “Boi Neon” e “Mãe só há uma” – da disputa para demonstrar seu apoio a “Aquarius” e seu repúdio às atitudes do governo. Por fim, após ser indicado a mais de 15 prêmios internacionais (o que mais recebeu indicações dentre aqueles que estavam concorrendo), a obra de Kleber Mendonça Filho não foi a escolhida pela Comissão. No lugar de “Aquarius”, o filme escolhido foi “Pequeno Segredo”; entretanto, este filme não poderia ser escolhido por não ter sido lançado em nenhum cinema até a data prevista pelo Oscar (Setembro). Após a sua escolha, o filme teve de ser lançado às pressas em meia duzia de cinemas para que ele pudesse concorrer por uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Dessa maneira, antes mesmo de sua exibição, “Aquarius” já representava um símbolo de luta e de incômodo a uma elite nacional.

 

Enredo

Partindo, enfim, para a obra em si, “Aquarius” conta a história de uma ex-jornalista, Clara (Sônia Braga), que após criar seus três filhos, perder o marido e vencer um câncer, vive tranquilamente em seu apartamento, no Edifício Aquarius, a beira mar, no Recife. Mas a sua tranquilidade fica comprometida quando um jovem engenheiro, Diego (Humberto Carrão), aparece prometendo tirar o sono da protagonista para conseguir fazê-la sair do último apartamento ocupado no prédio para que a empresa de seu avô, a Construtora Bonfim, possa demoli-lo e construir um novo e moderno prédio no local. A princípio, o enredo parece sem maiores reflexões ou aprofundamentos, mas é justamente aí que vive a magia desse novo cinema brasileiro.

Uma realidade nacional

O filme se propõe a deflagrar a sociedade brasileira, a partir desta história simples, em seus mínimos detalhes, dando uma naturalidade genial a obra.  É possível se deparar com situações e diálogos cotidianos a todo momento, mas ao vermos elas ali, estampadas na tela, nos daremos conta do quão problemáticas, preconceituosas e racistas elas são. Como exemplo, temos uma cena logo no começo do filme em que Clara está com várias pessoas na praia, desenvolvendo uma atividade em grupo com um tipo de personal trainer, até que chegam três adolescentes negros; então, as pessoas param de realizar a atividade e parecem ficarem tensas, mas, na verdade, os jovens apenas queriam participar da atividade como todo mundo. São em cenas simples e cotidianas como essa que Kléber Mendonça Filho vai deflagrar, por exemplo, um racismo velado tão presente em nossa sociedade, sem que, para isso, ele precise recorrer às falas ou ao diálogo, de modo que tudo fique subentendido nas imagens.

“Aquarius” discutirá ainda, e mais intensamente, as relações de poder a partir do embate de classes sociais, seja da elite com a classe média, ao vermos Diego falar “você sabe com quem você está falando?” para Clara, ou então da classe média com a classe baixa, como quando Clara vai no aniversário de sua empregada, Ladjane (Zoraide Coleto), e percebemos que a protagonista sai de seu belo apartamento para uma festa na laje. Além disso, o filme fará questão de demonstrar como a elite brasileira mantém seu status quo a partir de relações mascaradas e escondidas de todos aqueles que detêm poder, como o jovem Diego que se mantêm nas colunas sociais de um jornal famoso da cidade porque é afilhado do irmão do editor do jornal, além de ser neto do dono da empresa em que trabalha. Desse modo, vemos todo o estabelecimento de relações veladas para manter no poder sempre essa elite preconceituosa, como o filme vai mostrar em vários momentos.

 

Memórias e afetos

Entretanto,  talvez a temática mais importante do filme seja a questão da memória, do carinho por algo que concentra muitas memórias do ser humano. A começar pelo motivo de Clara não querer sair de seu apartamento por dinheiro nenhum. Ela sabe que aquele lugar concentra boa parte da história de sua vida, por isso ela diz que dinheiro nenhum no mundo substituiria as experiências lá vividas. Assim sendo, fica claro as noções geográficas de “lugar” e “espaço”, na trama do filme. “Espaço” seria toda uma extensão fisicamente constituída, concreta, material, substantiva; já “Lugar”, seria uma relação subjetiva homem-ambiente, em que há uma experiência ou “centro de significados” que estão em relação dialética com o espaço. Ou seja, ao vermos Clara relembrando momentos naquele apartamento (a primeira cena do filme é um flashback de acontecimentos que ocorreram ali) toda esta construção de lugar acaba por ser importante não só para a protagonista, mas para nós também, inclusive, pelo título do filme remeter ao lugar Aquarius.

Em outro momento, essa questão da memória e dos afetos ao lugar e à determinados objetos fica ainda mais nítida quando Clara está sendo entrevistada por uma jornalista que lhe pergunta se ela prefere vinil ou mp3; então, a protagonista vai até a sua coleção de vinil, retira um disco dos Beatles e começa toda uma reflexão sobre a história daquele objeto que ela comprou em um sebo no Rio Grande do Sul, e que havia um bilhete dentro, falando de quem era e para quem iria aquilo que um dia foi um presente. Dessa maneira, Clara deixa explícito a sua opinião sobre a importância da mídia física, mas a jornalista a responde apenas dizendo “mas então, você prefere vinil ou mp3?”, em um ato de surdez à qualquer reflexão mais profunda. Kleber Mendonça Filho consegue, ainda nesta reflexão, fazer com que um objeto (uma cômoda) se torne um personagem no filme, mas vou deixar que vocês descubram sozinhos o porque e como ele faz isso.

Toda essa reflexão sobre a memória retorna ao ponto principal da narrativa: a motivação da empreiteira em derrubar o prédio para construir um novo e a motivação da protagonista em não querer sair daquele apartamento por nenhuma oferta milionária. Assim, para empreiteira, Aquarius é apenas um Espaço, enquanto para Clara, é um Lugar. Cabe ainda uma reflexão sobre o papel da mulher mais velha, representado na figura da protagonista, uma vez que suas vontades são tidas como pejorativas por todos os outros personagens, como se uma mulher de meia idade não pudesse ter vontades, sendo ela encarada como louca. Kleber nos mostra como em nossa sociedade desprezamos tudo aquilo que é afetivo, que esteja ligado à história, em troca do dinheiro.

 

Conclusão

Caberia ainda muitas outras análises sobre esta obra, principalmente nas questões estéticas e narrativas, como a divisão do filme em capítulos ou os enquadramentos que se movimentam lentamente, às vezes interrompidos por um brusco zoom. Mas o que importa, de fato, é saber da importância que uma obra como “Aquarius” tem para o cenário cinematográfico nacional, pois ajuda a desconstruir aquela velha fama, sem argumentos, de que o Brasil não sabe fazer filmes. A discussão é bem mais complexa do que possamos imaginar.

Por fim, tendo sido indicado a mais de 15 prêmios internacionais, “Aquarius” surpreende por sua simplicidade ao refletir sobre toda uma realidade brasileira não dizendo tudo ao espectador, sem forçar a crítica na tela, mas, de maneira orgânica, nos fazendo entender todos os problemas da realidade nacional. Talvez seja justamente isso que tenha feito com que o filme fosse boicotado no cenário nacional, aclamado no internacional, e incontornável dentro do cinema brasileiro.

legenda Alexandre

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *