Bacurau é Brasil

Obs: esse texto contém spoilers 
do filme “Bacurau” (2019).

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Era uma vez em Bacurau

Em um futuro não tão distante, o Brasil dividiu-se. Há o Brasil do Sul, um lugar com execuções públicas agendadas e televisionadas. Há também uma região mais ao nordeste que não conhecemos o nome ou o que aconteceu com ela. Mas, sabemos que no interior dela há uma cidade chamada Bacurau, um vilarejo com poucos habitantes, que se organizam da forma como podem para sobreviver mediante a negligência do Estado, a falta de água, a forasteiros e a um aparente conflito com o Brasil do Sul.

Nesse povoado, temos o professor Plínio, que é sábio e possui uma imensa biblioteca; temos também Domingas, que é a médica que cuida das enfermidades de todos; temos Teresa, uma jovem que retornou para a cidadezinha trazendo vacinas para a população; há ainda Pacote, responsável pela segurança; temos, ainda, a dona da mercearia, o dono do carro de som, as prostitutas, o violeiro, e tantas outras personalidades; cada uma cumprindo seu papel social para que a comunidade consiga existir de forma pacífica. Todos se ajudam em Bacurau.

Temos também o prefeito Tony Junior, que tenta persuadir a população com remédio e comida; entretanto, os medicamentos são tarja preta e servem para deixar a população lesada, enquanto boa parte dos alimentos estão vencidos. Plínio e Domingas, os mais sábios do vilarejo, são responsáveis por alertar o povo sobre essas questões, mas a palavra final de os consumir ou não é individual; cada um define o que quer para si, desde que não afete o coletivo.

Porém, algo quebra a rotina e a normalidade do povoado de Bacurau. Tudo começa quando cavalos de uma fazenda próxima aparecem na cidade durante a noite. Dois cidadãos do vilarejo vão levar os cavalos de volta e descobrem uma verdadeira chacina, e, em seguida, são executados a sangue frio. Enquanto isso, um casal de motoqueiros forasteiros do sudeste do Brasil do Sul aparece na cidadezinha. Eles param, supostamente, para beber algo; o povo da cidade os convida para conhecer o Museu de Bacurau, mas eles ignoram a cultura local, oferecem dinheiro, com um certo asco, para o violeiro que toca uma música para eles, e logo vão embora dali. Após isso, Bacurau some do mapa e fica sem qualquer sinal de telefone. 

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Motoqueiros forasteiros sulistas indo para Bacurau

Bacurau, que se vê acuada por estar fora do mapa e sem sinal justamente quando apareceram os estrangeiros, começa a perceber que a normalidade e o cotidiano do vilarejo está comprometida. Isso se confirma quando Pacote encontra o corpo dos dois amigos na fazenda em que houve a chacina. É então que Bacurau pede ajuda ao guerrilheiro procurado Lunga.

O que vemos em seguida é uma obra de arte que mistura Western, Ficção-Científica, Ação e Suspense, habilidosamente dirigido por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, com participações de Sonia Braga e Udo Kier. Em seus 132 minutos, “Bacurau” apresenta uma visão do sertão nordestino, do Brasil, e, por que não, da condição humana. A narrativa da sobrevivência de uma população que está em perigo é algo que já vimos no cinema antes; entretanto, a obra pernambucana vai além no como isso é contado.

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Elenco de “Bacurau”.

O nordeste

Talvez, uma das características que mais fazem de “Bacurau” uma obra única é a retomada de um aspecto inevitável do Brasil: o sertão nordestino. Narrado antes por Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, entre outros, o sertão sempre foi crucial na identidade nacional, e na obra de 2019, ele é palco novamente. Veremos a cultura de resistência que habita o interior pernambucano, bem como a negligência do Estado, quando não o boicote à esta região. 

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Cena de resistência do povo de Bacurau.

Para começar, partiremos de um fala do professor Plínio no enterro de Carmelita (a matriarcas de Bacurau), em que ele diz que ela deixou filhos, netos e bisnetos em todas as regiões do Brasil, como Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, saindo das fronteiras nacionais e indo para América, Europa e afins, sendo eles médicos, pedreiros, advogados, marceneiros entre outros. Dessa forma, quebra-se a ideia de uma identidade caricata e estereotipada nordestina; ao contrário, “Bacurau” diz que há uma diversidade identitária e cultura no nordeste, e que esta habita o mundo todo, em diversas formas. Não há um nordeste único e pejorativo que o sudeste do país insiste em criar, senão uma pluralidade de Bahias, de Pernambucos, de Sergipes, de Cearás, de Paraíbas, e assim por diante.

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Enterro de Carmelita.

Outro ponto de reflexão que “Bacurau” nos permite é o da negligência do Estado com a região nordestina. Se nos propormos a fazer uma reflexão histórica, teremos que o centro econômico, político e social do início do Brasil colonial foi o Nordeste. A Capitania Hereditária de Pernambuco era a mais próspera e a região que mais produzia açúcar no mundo. Não é por acaso que os holandeses vão invadir esta região após os processos de União Ibérica e de embargo comercial da Espanha com a Holanda.

Mas após as consequências das invasões holandeses em Pernambuco – que seria a produção de açúcar da Holanda nas Antilhas –, o Brasil perde seu monopólio do produto, entra em uma crise, e se mantém neste contexto até a descoberta das primeiras jazidas de ouro em Minas Gerais. É o momento em que se inicia a substituição do eixo nordestino pelo do sudeste.  O ponto alto dessa troca é a mudança da capital brasileira de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763. Desde então, diversas revoltas vão estourar no norte e no nordeste do país por conta da negligência do Estado, a exemplo da Balaiada, Sabinada, Cabanagem, Conjuração Baiana, Revolução Pernambucana, Canudos, etc.

Por fim, Bacurau representa também o Cangaço, um movimento social que vai ocorrer em fins do século XIX e início do XX, como uma forma de banditismo social em resposta à negligência do Estado com a população do sertão nordestino. A obra cinematográfica representa esse grupo como sendo parte integrante da história da cidade, e descobrimos isso por meio do Museu do vilarejo, que nos apresenta armas, fotos e notícias que representam o quanto a história do Cangaço e de Bacurau se entrelaçam. A figura de Lunga é a personalização de toda essa reflexão, uma vez que ele vive refugiado, encarnando um cangaceiro guerrilheiro nessa distopia, mas que o povo, ainda que o tema, o respeita e conta com ele para resolver suas mazelas. 

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Lunga.

Esse último ponto, inclusive, é o responsável por fechar todo esse arco de reflexão acerca do nordeste e de Bacurau. A cidade se vê ameaçada por um inimigo forasteiro que subvaloriza a cultura da região, e que se nega a conhecer a história deles. O inimigo subestima esse povo achando que não possuem nada o que lhe ensinar. É neste ponto que o inimigo se vê surpreendido por um povo guerreiro e que resiste, com uma história, uma cultura e uma diversidade incríveis. Após os atos de resistência da população, as marcas do conflito ficam nas paredes do Museu, e a responsável pelo estabelecimento diz que faz questão de não limpar as marcas, pois elas são mais algumas provas históricas do quanto esse povo luta e resiste. Sobre isso, vale o complemento do próprio Kléber Mendonça Filho: “ao longo da história, ele [o nordeste] não ficou com uma distribuição justa da riqueza, e isso explica por que a resistência ali é constante”. 

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Capa fictícia do Diário de Pernambuco exposta no Museu de Bacurau mostrando o passado cangaceiro da região.

O vira-lata

Em Bacurau, temos também a subtrama dos estrangeiros. Estes, descobriremos posteriormente, fecham um contrato com o prefeito para se “divertirem” no vilarejo em uma espécie de caçada, em que atirariam e matariam todos, e, como se fosse um esporte, cada morte vale um ponto. Os dois motoqueiros forasteiros do sudeste, já citados anteriormente, se aliam à esse grupo de “gringos” para os ajudarem nessa empreitada. Porém, os brasileiros do sul percebem que, após terem concluído suas missões, serão executados. 

Assim sendo, o casal tenta convencer o grupo de estrangeiros a não os matar, afinal, apesar de serem brasileiros, são do sul, são brancos e descendem de alemães e são “como” qualquer um dos estrangeiros. Um dos estadunidenses responde dizendo que os brasileiros não são como eles, uma vez que possuem “lábios grossos e nariz largo”, ainda que sejam brancos. Na verdade, eles são “bem latinos”, afirma uma outra estadunidense. E logo em seguida, são executados. 

Esse diálogo representa muito bem o famoso “complexo de vira-lata”, que, segundo o criador desse termo, Nelson Rodrigues, é definido como “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”. Assim, a vontade dos dois brasileiros de serem iguais aos estrangeiros e matarem seu próprio povo é algo que reflete muito bem esse complexo; bem como o prefeito Tony Junior, o prefeito que entrega o vilarejo para os “gringos” se “divertirem”.

“Bacurau”, inclusive, passou por um processo metalinguístico em sua distribuição. A versão “oficial” do filme, que foi distribuída em festivais e para os críticos, traz todos os diálogos dos estrangeiros em inglês. Porém, após a distribuidora do filme conversar com os diretores, decidiu-se fazer uma versão com essas cenas dubladas para o Brasil. Logo, tudo que envolvia os brasileiros sulistas também era dublado; ou seja, eram brasileiros dublados em português. Isso cria mais uma camada de análise dentro dessa noção de “viralatismo”. Esse é mais um retrato do Brasil que “Bacurau” nos apresenta, o do brasileiro que nega sua origem e sua cultura em função do estrangeiro. 

O Brasil e o Bacurau

Bacurau é não apenas uma analogia ao nordeste, senão ao país como um todo. Ainda que o roteiro do filme tenha sido produzido há dez anos, ele reflete mais do que nunca o Brasil de 2019. A grandeza da obra está no fato dela ser atemporal e universal, mesmo que apresentando um contexto específico (o sertão nordestino) em um tempo definido (uma Pernambuco futurista).

Assim sendo, enquanto reflexo de um Brasil atual, temos agentes públicos colocando seus interesses a frente do bem popular, como é o caso do prefeito Tony Junior e de um dos brasileiros sulistas que fecha acordo com os estrangeiros; vemos crianças de nove anos sendo mortas a sangue frio com a justificativa de que elas pareciam “estar armadas”, quando na verdade era apenas uma lanterna, e tendo suas roupas ensanguentada e com marcas de bala flamulando em um varal; vemos a materialização da vontade de uma parcela da população de “bandido bom é bandido morto” por meio das execuções em praça pública; vemos a fetichização da indústria bélica que estamos importando dos Estados Unidos; vemos um carro de inocentes sendo violentamente alvejado de balas…

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Roupas da criança baleada.

Mas, além disso, vemos um Brasil universal e atemporal que tem resistência de um povo guerreiro; vemos o saber local se impondo aos interesses imperialistas; vemos o povo se refugiando em escolas e museus para enfrentar o estrangeiro que quer colonizar; vemos a resiliência e a revolução. Bacurau nos mostra um povo que canta, ainda que esquecido. Bacurau é a ave noturna que enfrenta a águia estadunidense e o condor da operação que tentou destruir o Brasil e a América Latina. Bacurau é a Terra do Sol, de Deus e do Diabo. Bacurau é o Sertão, e o “Sertão é o mundo”. Bacurau é a Canudos que resistiu; são os quatro – “um velho, dois homens feitos e uma criança” – “na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”. Bacurau é resistência. Bacurau é Brasil. 

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