Como a mídia trata o Negro e as culturas afros no Brasil e na América?

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 Apagamento

A mídia brasileira ignora o negro em todos os sentidos. A começar pela área jornalística, não se fala sobre a situação de extremo descaso social. Não se fala que 70,8% da população pobre brasileira é negra, não se mostra os salários 2,4 vezes mais baixos do que o de brancos nos mesmos cargos, não se fala – tal qual no filme A 13ª Emenda (2016) – de um sistema carcerário que tem 2 negros a cada 3 presos, e não se fala que a cada 10 homicídios no Brasil, 7 são de negros, sendo 80% destes jovens de 16 a 29 anos – segundo relatório da ONU. Rita Izsák, autora do relatório, afirma, a partir destes dados, que “a pobreza no Brasil tem cor”, e podemos afirmar, segundo todos os dados supracitados, que o sistema também funciona para que isso se mantenha.

Talvez o exemplo máximo de toda essa questão seja o Projeto de Lei 4471/2012, que propõe perícia, exame de corpo de delito, necropsia e instauração de inquérito nos casos em que o emprego da força policial resultou morte ou lesão corporal, porém, está sujeita a apreciação do Plenário desde junho de 2016, ou seja, mais de um ano de espera e o descaso com a lei só se torna mais evidente (ainda mais se pensarmos que sua proposição foi em 2012). Temos ainda o projeto de Lei 10.639/2003 que institui o ensino obrigatório das Relações Étnico-Raciais e das Culturas Africanas e Afro-Brasileiras, mas que, além de terem perdido seu caráter de obrigatoriedade com a “reforma” do Ensino Médio de 2017, também tem/teve fortes dificuldades em sua implementação – a saber a não formação de docentes “sensíveis e capazes” para lidar com o tema, tal qual apresentado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais referentes a este tema.

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O cinema e as culturas afros: Estados Unidos

A partir destas questões, podemos adentrar mais no processo de apagamento de toda a realidade negra, partindo para o âmbito das discussões culturais, as representações da População Negra e das Africanidades. Se pensarmos no cinema – arte extremamente presente em nossas vidas contemporâneas repletas de superestímulos audiovisuais –, teremos que o primeiro longa-metragem da história, O nascimento de uma nação (1915), trazia a Ku Klux Klan como os heróis da história, enquanto os negros, vividos por Black faces, eram quase bestiais. O primeiro filme falado da história do cinema, O cantor de jazz (1927), também trouxe consigo black faces, além da apropriação do estilo jazz, gênero musical criado por comunidades negras estadunidenses como forma de resistência. Então, temos, no cinema, uma arte que historicamente não representou as etnias afros, e quando representou, foi de maneira estereotipada, a partir dos três “L”s, que o professor Fernando Conceição muito bem coloca: lúgubre, lúdico e luxurioso.

A partir destas questões, vale a pena destacar as incessantes polêmicas em que o Oscar, evento máximo da Indústria Hollywoodiana, se envolve com questões étnico-raciais. Em 2015 e 2016, nenhum ator ou atriz negro concorreram às premiações. A exemplo desta questão, temos que em 2015, o filme Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2015) foi ignorado nas principais categorias do Oscar, incluindo Melhor Ator para David Oyelowo e, mais ainda, Melhor Diretora para Ava DuVernay, indicada anteriormente ao Globo de Ouro, e diretora do já citado A 13ª Emenda (2016). A repercussão reforçou o título da Academia como preconceituosa e machista. Mas a história não acaba aí.

No Oscar 2016, a polêmica tomou níveis inimagináveis quando não indicou, novamente, nenhum ator, atriz, diretor ou diretora negros. A internet iniciou a hashtag #OscarSoWhite. As reações se deram dessa maneira devido a polêmica de 2015 ter se mantido em 2016 e, além disso, pelos ótimos trabalhos que foram esnobados pela Academia, como o de Will Smith por Um Homem Entre Gigantes (2015), Idris Elba – premiado pelo Sindicato dos Diretores – e Abraham Attah por Beasts of no Nation (2015) e Samuel L. Jackson por Os 8 Odiados (2015).

Mas quem pensa que a polêmica é recente, se engana. Desde o ano que os Oscar começou, em 1929, tivemos 51 premiações em que não houveram atores ou atrizes negras indicados. Até a cerimônia de número 88 (relativo ao Oscar de 2016), apenas seis atrizes negras levaram o prêmio nas categorias Atriz Principal e Atriz Coadjuvante. Apenas 31 artistas negros foram premiados em toda a história do evento, somando todas as categorias. Até 1949, apenas uma pessoa negra havia sido indicada a uma estatueta. Os números da maior cerimônia de cinema do mundo são assustadores. Vale ressaltar que em 2016, apenas 2% dos membros da Academia que avaliam as obras fílmicas eram negros.

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 O cinema e as culturas afros: Brasil

Para além destes número, ao nos voltarmos para o cinema nacional, o impacto é basicamente o mesmo, senão maior. Pretos e pardos correspondem à metade da população brasileira (o Brasil tem a segunda maior população negra do mundo, ficando atrás apenas da Nigéria), mas são apenas 15% dos atores principais e 2% dos diretores de filmes nacionais, mas isso apenas no que diz respeito aos homens, porque quando partimos para as mulheres negras, a representatividade quase inexiste: dos 100% de direções nacionais, 84% foi dirigido por homens brancos, 13% por mulheres brancas, 2% por homens negros, e a conta se fecha com nenhuma mulher negra atrás das câmeras. Entre os roteiristas, o abismo social é o mesmo: 74% são homens, tendo apenas 4% negros, e no resto, que compõe as mulheres, também inexiste a roteirização por mulheres negras. Logo, se não temos mulheres negras dirigindo e escrevendo, não há lugar de fala para este grupo.

No que diz respeito a atuação, apenas 31% dos filmes analisados – por fontes do Jornal Nexo – tinham atores negros. E voltamos aos três “L”s do professor Conceição: esta pouca representatividade é estereotipada. Esse fenômeno pode se dar justamente porque também não há negros e negras dirigindo e roteirizando as narrativas. Partindo para os dados da atuação, 59% dos atores são homens, tendo uma porcentagem de apenas 14% negros, e dos 41% restantes das mulheres, apenas 4% são negras. Dessa forma, como nós, enquanto Brasil, país de raízes culturais fortemente arraigadas no continente africano, segunda maior população negra do mundo, podemos entender e valorizar as Africanidades com esse escasso, quase inexistente, protagonismo das diversas culturas afros?

Áfricas: entre Hollywood e Nollywood

É importante pensar também a repercussão de filmes com temáticas africanas e originários do continente africano nas mídias, nacionais e internacionais, já que sempre houve um grande descaso desta quanto a tudo aquilo que envolva a África. Podemos voltar, então, para a questão inicial da mídia, em que o continente é retratado apenas como um lugar cheio de miséria, guerra e epidemias. Esta visão ainda é apresentada brevemente nos noticiários diários, entre a meteorologia e o esporte. Ou seja, fala-se em África de um modo generalizado, sem se deter em qualquer uma das suas cinco regiões, 54 países e milhares de etnias (cerca de duas mil). Assim sendo, fica fácil de confundir a África com um país.

Essa situação gera um outro problema: o continente africano, seja o Maghreb, a África Central, Austral, Oriental ou Ocidental, acaba não tendo voz diante do Ocidente. Isso se deve justamente pelo que Edward Said, em sua obra Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente (2007), chama de “Orientalismo”, ou seja, “termo genérico que tenho empregado para descrever a abordagem ocidental do Oriente; Orientalismo é a disciplina pela qual o Oriente era (e é) abordado de maneira sistemática, como um tópico de erudição, descoberta e prática”.

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Uma forma de “combater” o Orientalismo seria ver e ouvir o próprio continente africano. Para isso, poderíamos nos valer de Nollywood ao invés de Hollywood. Nollywood é a indústria cinematográfica nigeriana que, atualmente, se encontra como a segunda maior do mundo (em número de títulos produzidos anualmente), ficando atrás apenas de Bollywood, na Índia. Para se compreender a força do cinema, em formato de vídeo, na Nigéria é só compará-lo com a força cultural que as novelas têm no Brasil.

Porém, encontram-se barreiras invisíveis que não permitem (i) que outros países africanos consigam desenvolver, de forma satisfatória, uma indústria tal como a Nigéria e (ii) que os filmes da própria Nollywood sejam verdadeiramente integrados ao cenário internacional, em festivais de ampla concorrência, como Cannes, que chegou a ficar 13 anos sem um representante africano.

Essas barreiras invisíveis se dão por vários fatores, dentre eles: (i) a forte intervenção europeia no cinema africano – principalmente da França, via Ministério da Cooperação – por meio de incentivos à produção cinematográfica, mas sempre impondo influências nas produções por conta do financiamento; (ii) a intervenção estatal na produção de filmes que acabam gerando censura, como é o caso da Argélia; (iii) as distribuidoras estrangeiras que inundam o mercado africano com filmes hollywoodianos e bollywoodianos; (iv) a falta de cinemas por todo o continente; além de outros diversos fatores apontados pelo pesquisador Roy Armes (2007).

Toda essa questão faz com que não haja grandes outros centros produtores de cinema na África e, também, que Nollywood baseie-se fortemente na produção de filmes que serão distribuídos em mídias físicas, fazendo com que todos consumam individualmente, em suas casas, de modo que esses filmes dificilmente cheguem ao mercado internacional. Além disso, essas barreiras fazem com que esqueçamos – ou nunca conheçamos – grandes diretores do cinema africano, como os senegalêses Ousmane Sembène (tido como o pai do cinema africano) e Djibril Diop Mambéty, Idrissa Ouedraogo, de Burkina Faso, Souleymane Cissé, do Mali, Licinio Azevedo, de Moçambique, e Dramane Sissako, da Mauritânia.

Juntando o descaso da mídia com o problema de produção e distribuição de filmes africanos, o que nos resta é consumir o que Hollywood produz, de tal modo que esta indústria se torne a maneira mais próxima que temos para “saber” sobre África. Agora pensemos em todos os dados apresentados anteriormente acerca do Oscar, e reflitamos como Hollywood pode retratar o continente. Consumir o material hollywoodiano não seria problema, não fosse: (i) o protagonismo branco presente na maioria das obras (vide Amor sem fronteiras (2003), Lágrimas do sol (2003), O jardineiro fiel (2005), O último rei da Escócia (2006), Diamantes de sangue (2006), Invictus (2009), e Uma boa mentira (2014), todos com protagonistas brancos ao falar sobre o continente africano), (ii) a deturpada imagem dos africanos e da África, e, até mesmo, (iii) do que os africanos pensam sobre a África, como podemos ver, por exemplo, em Diamantes de sangue, em que o personagem Solomon Vandy (Djimon Hounsou) diz que só será feliz quando conseguir fugir do continente.

Assim, concluímos que as culturas afros no ocidente são extremamente apagadas, vistas pelo viés do Orientalismo. Desvaloriza-se, então, a figura do negro, marginaliza-o, apaga-se toda a sua contribuição cultural, mesmo sendo vasta em nosso cotidiano. É justamente em cima destas questões que devemos agir, revertendo, valorizando esta cultura que nos é intrínseca.

legenda Alexandre

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