Como o discurso de ódio memético empobrece (e atrasa) o debate público brasileiro

Uma briga entre as facções Família do Norte (FDN) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), motivada pelo avanço desta última para o Norte do país, ocasionou uma sangrenta disputa dentro de presídios no país, no início desse ano. Em Manaus, 56 detentos foram assassinados durante uma rebelião no complexo penitenciário Anísio Jobim (COMPAJ) no domingo (1º de janeiro). Na segunda-feira (02 de janeiro), mais 4 presos morreram, desta vez na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), também em Manaus. Já na sexta-feita (06 de janeiro), mais 33 presos foram mortos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (PAMC) em Boa Vista, na capital de Roraima. No total, foram 93 mortos na primeira semana de 2017.

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Muitas questões relacionadas aos massacres devem e vêm sendo discutidas, como, por exemplo: a superlotação das cadeias e a contribuição da falida guerra às drogas para este fator;  a grande quantidade de presos temporários (pessoas que ainda não foram julgadas); a facilidade que líderes de facções têm para continuarem coordenando as organizações criminosas de dentro dos presídios; o baixo nível de segurança dos presídios, onde objetos como facas, barras de ferro, telefones celulares e até armas de fogo circulam livremente; o elevado custo de cada detento para o Estado brasileiro, e a iminência de superfaturamento das empresas terceirizadas que administram os presídios, etc. Assim, somente diante destes breves tópicos, percebemos com facilidade que a temática é de ordem complexa, e carece de atenção urgente das autoridades do governo brasileiro e da população.

No entanto, não raras são as manifestações, digamos, grotescas, de políticos brasileiros, tal qual a do deputado federal Major Olímpio (SD-SP) em uma rede social. Na ocasião, em um tom jocoso e perverso, o deputado faz piada de um de nossos maiores problemas de segurança pública, evidenciando nosso já sabido problema de representatividade política.

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Para piorar um pouco a situação, ao invés do discurso de ódio e falta de decoro do referido político se tornar uma fonte de problemas para o mesmo, ele foi compartilhado, elogiado e endossado por milhares de internautas, mostrando o quão danosas e empobrecedoras podem se tornar as reações em massa nas redes sociais, caracterizadas pela falta de argumentação lógica e científica (comprometida com dados), pela violência e o desejo de vingança.

JÁ VI ISSO EM ALGUM LUGAR…

George Orwell, pseudônimo do autor Eric Arthur Blair (1903 – 1950), publicou em 1945 a fábula A Revolução dos Bichos, uma crítica aos regimes totalitários, na qual um grupo de porcos (cujo líder autoritário e  violento é Napoleão) toma a liderança de uma fazenda. Nela, o personagem Sansão, um cavalo de carga muito trabalhador, vive repetindo o bordões “Napoleão tem sempre razão!” e “Trabalharei mais ainda”.

Trocando em miúdos, a situação faz lembrar bastante ao que foi previamente exposto neste texto. Uma parte da população trabalhadora, na ausência de uma representação política que faça jus aos cargos que ocupam, acabam adotando as sangrentas palavras de seus governantes, que funcionam como um pavio para um barril de pólvoras.

DENTRO DO BARRIL…

                Dentro do barril, estamos todos nós. Ao adotar a postura da propagação da violência gratuita, e do desejo de vingança, acabamos por não resolver a questão da segurança pública (ou qualquer outra questão), e assim perpetuamos o circulo vicioso do aumento da violência do “cidadão de bem” para combater a violência do “homem mau”. Tenta-se, inclusive, delimitar uma figura caricata do criminoso. Fala-se de atribuição de culpa à cor, origem geográfica, falta de planejamento familiar de famílias pobres, hábitos culturais e até mesmo jogos de videogame.

Cesare Lombroso (1835 – 1909), médico psiquiatra e antropólogo italiano, é considerado o criador da Antropologia Criminal. Em sua obra, influenciado pela Escola Positivista, Lombroso dedicou-se a estudar empiricamente os deliquentes em presídios, fazendo medições faciais e do crânio, dentre outras anotações, em busca de características que, quando presentes, levassem o indivíduo a cometer crimes. Como resultado de seu trabalho, Lombroso propôs o chamado “criminoso nato”, aquele que já teria a “pré-disposição” ao crime. Com o avanço da Criminologia, esta parcela de sua teoria foi refutada (cabe ressaltar que a contribuição de Lombroso não é contida somente ao estudo aqui descrito), e a relação entre características físicas e a prática de crimes foi então desacreditada. Posteriormente, desta vez no nível genético, a ideia de pré-disposição ao crime também foi estudada por geneticistas, cuja credibilidade também foi desacreditada posteriormente.

E AGORA?

                As tentativas de atribuir uma “culpa” (que na realidade concreta é multifatorial) ao indivíduo, por algumas de suas características fenotípicas, genotípicas ou até mesmo relacionada à hábitos, mostraram-se esgotadas ao longo da história humana. Exposto isso, talvez seja prudente lembrar as persistentes e exacerbadas desigualdades sociais presentes nos países periféricos (dentre os quais encontram-se os países da América Latina e África, por exemplo) como o principal fator produtor da violência, onde a pobreza perpetua-se e continua produzindo um cenário sangrento, que, inclusive, é alimentado pela onipresente corrupção praticada por políticos (cujas campanhas são financiadas pela indústria bélica) sem o menor interesse de que alguma melhoria ocorra na vida da população repleta de mazelas.

Estar disposto ao diálogo, significa compartilhar suas visões sobre o mundo com outras pessoas, as quais certamente farão o mesmo. Dialogar, no entanto, não implica (ou não deveria implicar) em uma disputa, em que alguém ou um grupo de pessoas sairá vencedor, e o outro perdedor. Façamos todos um debate público pautado na ética, no respeito, nos Direitos Humanos e na empatia. Já que estamos, em grande parte, desamparados de representação política séria, façamos diferente: confrontemos ideias e opiniões, lembrando que tudo o que é por nós escrito ou verbalizado, concretiza-se de alguma forma no âmbito do convívio social.

Retomando o Major Olímpio, mas, com uma pequena correção humanitária, finalizo: “Vamos lá Brasil! Vocês podem fazer melhor”.

legenda Luis

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Willian Barberino disse:

    Texto sensacional. Promove mesmo a reflexão sobre a nossa falta de empatia.

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