COPA DO MUNDO E O MUNDO GLOBALIZADO: O CONTRASTE ENTRE A PAIXÃO E OS INTERESSES

O dia era 24 de junho de 1990, uma bela tarde de domingo, famílias reunidas no Brasil e em vários outros lugares do mundo, se organizaram em casas, praças e bares em frente à televisão. Não era um domingo qualquer, era dia de jogo do Brasil na Copa da Itália, na cidade de Turim. Não era apenas um simples jogo, e sim um Brasil e Argentina válido pelas oitavas de final da copa.

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Os italianos, os brasileiros, os argentinos e muitos outros torcedores espalhados pelos continentes não viram apenas a paixão e a garra latina em campo, mas também a final entre Alemanha Ocidental e Argentina, no mês de julho, vencida pelos alemães. Essa copa tornou-se um dos símbolos da Nova Ordem Internacional.  A vitória da Alemanha Ocidental foi um passo fundamental para aflorar ainda mais o nacionalismo alemão.

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A paixão pelo futebol, fez com que a vitória da Alemanha Ocidental influenciasse no processo de reunificação alemã em outubro de 1990, no que diz respeito à reaproximação do povo alemão que há décadas viveu separado em razão das áreas de influência capitalista e socialista-soviética imposta pela Guerra Fria.  A reunificação alemã teve início com a queda do muro de Berlim em 1989, o maior símbolo do fim da Guerra Fria, e o seu desenrolar após a vitória na copa da Itália.

A Nova Ordem Internacional, trouxe consigo um entendimento mais prático do “Mundo Globalizado”, em parte pela ampliação das interações entre os povos e nações favorecidas pela expansão, diversificação e “domesticação” das novas tecnologias de informações que vão surgindo e da modernização dos meios de transportes de forma constante, que intensificou os movimentos migratórios.

Até a Copa de 1990 na Itália, o evento, que teve seu início em 1930, no Uruguai, havia sido realizado, majoritariamente, na Europa e em parte na América do Sul, sendo em 1950 realizada no Brasil, em 1962 no Chile, em 1978 na Argentina e possuindo duas realizações no México, em 1970 e 1986. Em 1994, foi levada pela primeira vez aos EUA, evento que até hoje mantém o recorde de público entre todas as copas do mundo. Nos EUA, mais de 3 milhões de pessoas acompanharam, in loco, os jogos, sendo uma média de 70 mil espectadores/torcedores por partida. Uma verdadeira multiculturalidade. A copa dos EUA foi um grande símbolo da importância econômica do futebol, pois até então não existia uma liga de futebol profissional nos EUA, que veio a ser criada apenas em 1997, como um dos acordos comerciais que envolveram as negociações para levar o evento até a maior economia do mundo, caracterizando como as grandes potencias possuem uma elevada capacidade de influência na era globalizada.

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No inicio do século XXI o evento chega à Ásia e em 2010 à África, expandindo a fronteira futebolística para lugares onde a paixão por esse esporte já era amplamente reconhecida. A copa do mundo de 2002, realizada em conjunto por Japão e Coreia do Sul, traz novas marcas de um mundo extremamente globalizado, passando pelo alto uso e demonstração de novas tecnologias durante o evento, a ideia de uma Ordem Multipolar através da divisão da organização da copa e das possíveis influências no Extremo Oriente asiático e a mistura em larga escala de hábitos e costumes entre os eufóricos e apaixonados torcedores locais e estrangeiros presentes no evento, acentuada pelas comemorações da conquista do pentacampeonato por parte dos brasileiros. O mundo globalizado ficou conhecendo o agora famoso Jardim Irene, localizado na periferia de São Paulo, através da homenagem na camisa do capitão Cafu ao levantar a taça.

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E por último, geograficamente considerando, chega a vez da África, em 2010, e nem por isso menos importante. Um evento sensacional, demonstrando que sim, a cultura tem o seu lugar   na Aldeia Global. Uma grande diversidade de hábitos e costumes que foram desfilados pelas arquibancadas dos estádios, cheios de cores, cantos e danças, a grande multiculturalidade étnica que marca a identidade dos africanos. Porém, como a globalização, a África do Sul demonstrou a gigantesca desigualdade socioeconômica existente entre a sua população, tendo o famoso bairro de Soweto como o símbolo da convivência entre pobres e ricos. Justamente o lugar onde Nelson Mandela viveu parte de sua vida. O grande personagem que lutou contra a segregação racial, pela igualdade entre negros e brancos, contra o regime centralizador e por uma África do Sul unida e de melhor condição de vida para toda a população.

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Mesmo a copa do mundo sendo um evento o global, em determinados momentos, os jogos foram utilizados para atender os interesses de grandes Estadistas; mesmo que não oficialmente declarado, os cenários da época aliados a estudos e declarações de envolvidos indicavam sim um interesse político por trás da Copa do Mundo. Podemos citar, por exemplo, o engajamento de Benito Mussoline, nas copas de 1934 e 1938, vencidas pela Itália, em propagandear o fascismo. O envolvimento do governo militar brasileiro, durante a copa de 1970, realizada no México e vencida pelo Brasil, na tentativa de fortalecer o sentimento nacionalista. O empenho de Videla e seus aliados na copa da Argentina em 1978, vencida pela Argentina de forma polêmica, deu uma sobrevida ao regime ditatorial, mesmo com o caos político-social ( em destaque o movimento “Mães da praça de Maio” ) em que se encontrava o país.

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Os governantes, estadistas, republicanos ou democratas sempre tiveram uma grande participação na organização e realização dos eventos, basta olhar para os grandes gastos governamentais nas construções de estádios para os jogos, na implantação de infraestrutura, como em transportes, subsídios para a rede hoteleira privada e/ou isenções fiscais milionárias para a FIFA. Os grandes gastos governamentais como ocorreram na África do Sul, que giraram em torno 38 bilhões de Rands, equivalente a 3 U$S bilhões de dólares ou R$ 10 bilhões de Reais; no Brasil, R$ 25,5 bilhões de Reais; e a estimativa para a copa da Rússia é de 736 bilhões de Rublos, equivalente a R$ 40 bilhões de Reais ou 10 bilhões de Euros, em valores atuais, sendo a copa mais cara da história. Os gastos russos servem como uma exemplificação dos esforços do governo Putin para que a imagem da Rússia, seja como outrora, de uma grande potência influente na atual conjuntura global, visto a posição russa em assuntos delicados, como as questões da anexação da Criméia e a participação na Guerra da Síria. Em contrapartida, a copa dos EUA, em 1994, teve 0% de gastos públicos, sendo todo o investimento privado, enquanto que na copa da Alemanha, em 2006, os gastos públicos foram de aproximadamente 40% do total dos investimentos realizados.

É notório que o evento gera grandes gastos para as suas realizações, mas a expectativa de lucros é da mesma proporção, visto que os jogos atraem uma grande quantidade de torcedores do mundo todo para o país sede. Os fluxos migratórios durante a copa expõem a grande diversidade de povos e culturas que se misturam, efeito amplamente divulgados pelas mídias de comunicações. Para se ter ideia, a Copa do Mundo do Brasil, em 2014, foi acompanhada por aproximadamente 3 bilhões de pessoas ao redor do mundo.

Em 2022, a Copa do Mundo chegará ao Oriente Médio, mais precisamente no Catar, uma região marcada por uma forte identidade cultural e religiosa, um evento financiado pelos petrodólares e que atualmente vem exercendo uma forte influência no mundo do futebol, em razão dos grandes investimentos que vem sendo realizados, principalmente através da aquisição de times na Europa. O futebol está sendo utilizado, pelos árabes, como uma importante ferramenta para o reconhecimento ocidental da atual posição política e econômica dos países do Golfo. A expectativa é que os investimentos feitos para a organização do evento sejam superiores a todos os valores em relação aos jogos anteriores.

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A grande heterogeneidade de pessoas que acompanham o mundial de futebol também é refletida na formação das seleções dos países que disputam os jogos. Na copa da Rússia, que se inicia em junho de 2018, 78% das seleções jogarão com algum jogador naturalizado. Marrocos com 62% e Senegal com 40% são os países com as maiores taxas de jogadores que nasceram em outros países. Das 32 seleções que disputarão a copa, apenas 7 seleções utilizarão apenas jogadores que nasceram em seus próprios países, como é caso de Brasil, Alemanha, Colômbia, Irã, México, Coreia do Sul e Arábia Saudita. Atualmente, pelas regras da Copa, não é mais permitido que um mesmo jogador a jogue por seleções diferentes, porém, alguns casos na história chamam a atenção, como o jogador brasileiro Mazola que atuou pelo Brasil na copa da Suécia, em 1958, e atuou pela seleção da Itália, na copa seguinte, de 1962, no Chile.

Os torcedores que acompanharão os jogos da copa da Rússia também serão representantes dessa miscigenação, que é uma marca da globalização. A grande preocupação das autoridades russas e internacionais é que, durante o evento, a xenofobia e outras formas de preconceito e violência ocorram, assim como ocorrem no mundo todo, em razão dos discursos e das práticas de ações ultranacionalista e conservadoras de certos grupos, uma das características negativas e excludentes da globalização.

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A verdadeira torcida, apaixonada pelo futebol, tolerantes em relação à diversidade étnica, curiosa pelo conhecimento de novas culturas e pela integração de hábitos e costumes, torce para que, de fato, a Copa do Mundo de Futebol e o Mundo Globalizado sejam cada vez mais humanos e inclusivos, em que as desigualdades socioeconômicas se tornem coisa do passado e que as tecnologias de comunicações transmitam cada vez mais notícias festivas e alegres, em que, de fato, todos sejam uma só “nação”, assim como uma partida de futebol não seja só um jogo e que os discursos de integração e humanização não sejam apenas um teoria. E que venha o Hexa!!!

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