E você, o que fazia naquele 11 de setembro?

Lembro que eu tinha faltado na aula nesse dia, estava na casa da minha vó, deitada no sofá assistindo Tv e esperando o horário da natação. O desenho, que eu nem gostava muito, foi cortado e começou aquela música da Globo, que eu aos 11 anos já sabia que era sinal de problema. Vi um avião atravessado em um prédio e, por mais que parecesse, não era um filme. Logo depois, vi outro avião atingir a segunda torre. Na hora eu não entendi bem o que estava acontecendo, nos dias que se seguiram, ouvia algo como Al Qaeda (que na época eu não sabia nem escrever, muito menos do que se tratava), árabes, islã, ataque ao símbolo do capitalismo, terrorismo, guerra ao terror, Deus, etc. Era muita coisa para uma criança de 11 anos processar, mas de uma coisa eu tinha certeza, eu estava com medo de tudo aquilo.

 

Na minha adolescência ouvi muitas vezes o termo terrorismo. Era metrô, atiradores, uma série de coisas. Mas foi na faculdade que meu contato com essa palavra se tornou ainda mais próximo. Logo no segundo ano comecei a dar aulas de Geografia em um cursinho comunitário, no final de 2012, durante as aulas de Geopolítica, me debrucei em uma série de livros, sites, aulas sobre os conflitos e lá estava o tal terrorismo. Eu me recusava a odiar o Islã. Na época, eu já pensava que fui criada dentro de um sistema religioso, o Cristianismo em sua vertente Protestante histórica, e que meu modo de enxergar o mundo estava todo transpassado por essa religião, logo não podia julgar a religião do outro. Algum tempo depois, acho que especialmente depois de ter lido o Corão, entendi que a religião pode servir para muitas coisas, inclusive para jogos de poder, como é o caso da bancada evangélica em meu país e, em outro nível, dos extremistas de grupos como autodenominado Estado Islâmico.

 

Durante essas aulas, em 2014, estava mostrando um mapa de atuação desse grupo, a gente não sabia muito bem o que eram, mas todos nós estávamos empenhados em entender essa nova face do terror. Ao final da aula, de toda aquela explicação teórica, senti novamente o que tinha sentido quando tinha 11 anos, medo. Já com 23 ou 24 anos, depois de tantos sites, livros, vídeos, aulas, o meu medo é diferente, tinha noção de que pessoas em países como a Síria, a Nigéria, o Iraque, sentem muito mais medo do que eu, afinal isso faz parte do cotidiano de muitas delas e que algumas arriscam tudo na procura de um lugar melhor.

Hoje procuro compreender uma ligação para além do medo com aquele 11 de setembro e o terror em tantas partes do mundo, das mais noticiadas como a França as mais esquecidas como a Nigéria. Não sozinha cheguei a compreensão de que, para além das teorias conspiracionistas, os Estados Unidos da América (e incluam aqui boa parte dos países europeus que os ajudaram) têm parte da responsabilidade pelo terror que vivemos hoje. A instabilidade gerada na guerra do Iraque criou o ambiente propício a catalisação da radicalização e a criação de grupos como o Estado Islâmico.

No fundo minha conclusão é simples, é o ódio que alimenta esses grupos e esses jogos de poder. Quando vemos uma cena de xenofobia estamos diante de algo que pode ser usado por grupos extremistas para a famigerada radicalização. Quando dizemos que temos medo de muçulmanos, ou afirmamos que o Islã é uma religião de ódio, só ajudamos aos fundamentalistas. Diferente de Bush que inventou uma guerra para acabar com o terror, podemos não alimentar o extremismo, ou seja, olhar com empatia e compaixão para as pessoas que escolheram o Islã como religião e que hoje sofrem. Para que talvez as crianças, como as sírias em fotos emblemáticas, não tenham mais medo.

 

Por Aline Gomes | Professora de Geografia e Atualidades do Personal Educa.

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