Entre gingados e chibatas: uma contradição brasileira

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Brasil, o país do gingado

Se perguntarmos para alguns de nossos compatriotas o que, em suas próprias considerações, é ser brasileiro, provavelmente, em algum momento de sua fala, apareceriam certas referências a um povo festeiro, acolhedor e que tem um jeitinho próprio para lidar com as adversidades da vida social.

Quando nos referimos ao jeitinho brasileiro, isto é, a capacidade de lidar com situações problemáticas por vias improvisadas a fim de garantir vantagens para si próprio, parece-nos que o gingado do samba, que encanta o olhar estrangeiro com o remelexo de braços, quadris e pernas, possibilitaria diálogos e analogias com a vivência esperta – e, não raro, dissimulada – das práticas sociais, que caracteriza o jeitinho brasileiro, uma vez que o jogo de cintura torna-se imprescindível para obter o melhor resultado possível neste contexto.

O Brasil que se desenha por meio da flexibilidade da conduta parece encontrar, inclusive, ressonância no português que se fala por aqui. Entramos em uma loja, a vendedora se aproxima para se colocar a nossa disposição e, comumente, falamos: “Eu GOSTARIA de ver um sapato. Você PODERIA pegar aquele ali, por favor?”. Não estamos perguntando se há a possibilidade ou não de a vendedora pegar aquele sapato na vitrine, como a frase descontextualizada poderia sugerir, mas estamos emitindo uma ordem ou um desejo, o que, supostamente, motivaria o uso do verbo no Imperativo. Contudo, preferimos atenuar a força incisiva do Imperativo “pegue” por meio da jeitosa perífrase “poderia pegar”.

Se nós não queremos comprar nada, mas apenas entrar na loja para observar seus produtos, então, possivelmente, diríamos para a vendedora: “Eu estou só dando uma olhada”, ou, ainda, “Eu estou dando só uma olhadinha”, quando, na verdade, o objetivo é informar que “eu quero só olhar”. Observe como “dar uma olhada”, “dar uma passada na sua casa”, “dar uma lida nesse texto” parece soar mais sutil do que “olhar”, “passar na sua casa”, “ler nesse texto”. Ademais, a possibilidade de acrescentar o diminutivo, como em “dar uma olhadinha”, intensificaria ainda mais a sutileza sugerida.

Nesses termos, é de um jeito todo malandro, esperto, pronto para improvisar meios que torne as circunstâncias sempre favoráveis, de modo sutil, sem criar a necessidade do conflito declarado que parece pintarmos uma das faces do Brasil.

Brasil, o país da chibata

Uma história que se inicia sob as manchas sanguinárias do genocídio indígena e que, até hoje, parece encontrar certos ecos nos conflitos entre latifundiários e indígenas na disputa por terra no interior do país. Uma história que efetivou por três séculos a escravidão africana e que, atualmente, deixaria suas marcas desde postagens racistas em redes sociais até o alto índice de assassinato da juventude negra.

Comumente, ouvimos que o povo brasileiro se constitui da união das três etnias: índios, negros e europeus. A palavra “união”, entretanto, parece não conseguir evidenciar que não se trata apenas de um entrelaçamento étnico, mas que, inicialmente, a nossa mestiçagem se dá, sob muitos aspectos, pela violência à mulher indígena e à mulher negra – seríamos, então, os filhos da violência?

É, sobretudo, das relações violentas entre senhor de engenho e escravo que se perpetuaria a naturalização da violência em relações assimétricas no Brasil, em que o poder garantiria àquele que está em posição privilegiada a subjugação autoritária do outro. Seja na família, na escola ou no trabalho, o dito popular “fala quem pode, obedece quem tem juízo” parece nos dar as diretrizes de conduta esperada.

De acordo com o referido dito popular, o direito à palavra, ou, dito de outro modo, o direito a se expressar enquanto pessoa humana, portadora de linguagem, é reservado a quem detém o poder e, desse modo, resta somente aos demais obedecer as orientações e concordar com o que foi dito por quem possui o poder. Neste contexto, respeito deixaria de significar a distância necessária que possibilita estarmos próximos, para confundir-se com obediência.

Temos uma história política de poucos períodos democráticos, diversos golpes de Estado e regimes políticos autoritários, além da forte repressão que as revoltas populares sofreram ao longo dos séculos. Seja no passado, seja na atualidade, quando a população decide lançar a palavra que contraria as classes dominantes e o Estado, ganha a cena a outra face de um Brasil fortemente marcado pela violência.

Entre gingados e chibatas, mostra tua cara, Brasil

Ao tomarmos estas duas faces do Brasil frente a frente, a saber, a face do gingado e a face da chibata, podemos notar, a princípio, a constituição de uma contradição no modo como representamos o nosso país.  Ópera do malandro ou Tropa de Elite? Eis a questão. Quem poderia representar mais integralmente o Brasil?

Se considerarmos a contradição como um modo de compreender a realidade com mais abrangência, poderíamos pensar que justamente a contradição entre o jeitinho brasileiro e a violência que marca a sociedade e a cultura brasileira apontaria caminhos não para contrapor, de modo isolado, estas duas faces do Brasil, mas para relacioná-las.

Diante de estruturas sociais e de vivências culturais enrijecidas pela violência e pelo autoritarismo, o brasileiro poderia ter encontrado um modo sutil, esperto e criativo de escorregar pela vida social para procurar garantir resultados favoráveis a si próprio, ao mesmo tempo em que o jeitinho brasileiro, como modo de lidar com as adversidades, não se preocupa em questionar estes aspectos sociais e culturais, o que possibilita que eles continuem a marcar presença em nosso país.

Nesses termos, ao pensar sobre as últimas agitações políticas no Brasil, acredito ser possível entrever um aspecto positivo: o conflito, enfim, se coloca de modo declarado cada vez mais. Parece que há uma parcela considerável de brasileiros que não querem simplesmente dar um jeitinho nas situações adversas que vivenciam diariamente, mas querem, sim, enfrentar tais situações como problemas socioculturais a serem questionados, discutidos e solucionados. Talvez, se soubermos criar boas estratégias diante das instabilidades que o nosso país enfrenta, podemos obter ainda bons resultados coletivamente.

legenda Paulo

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