Por que trabalhar equidade de gênero nas escolas?

Sou professora e, ano passado, encabecei, junto com uma amiga, um projeto para discutir equidade de gênero com os alunos na escola em que trabalhamos. O surgimento desse projeto se deu, porque tivemos o caso de uma aluna que, após sofrer assédio por um colega de classe, procurou a coordenação para que uma reflexão fosse feita com a comunidade escolar sobre o caso, junto a isso, vimos no cotidiano da escola uma série de atitudes machistas e violentas sendo reproduzidas de maneira naturalizada. Dessa forma, ampliamos nosso olhar e percebemos o quanto crianças e jovens sofrem tentando se colocar em caixinhas dicotômicas de gênero que são extremamente nocivas para o seu desenvolvimento humano.

NORMOSE

Trabalhamos esse projeto no esquema de rodas de conversa, a princípio, com alunos de 14 a 18 anos. Escolhemos, como texto motivador do papo, o artigo “Como se sente uma mulher?”. De início, a aceitação e o engajamento dos alunos e da própria comunidade escolar (alguns pais, funcionários e professores, por exemplo) não foi imediato. Tivemos muitos obstáculos a transpor: alunos dizendo que estávamos “perdendo aula com assuntos inúteis”, pais contatando a escola, receosos, achando que estávamos “doutrinando” seus filhos, entre outras reações.

Entretanto, essas situações só nos deram mais certeza de que era, sim, preciso falar sobre equidade de gênero na escola.

Durante a realização do trabalho, percebemos que a maneira usada para lidar com o tema deveria ser muito bem pensada. Era necessário que fosse abordado de forma empática e compassiva, possibilitando um ambiente de acolhimento para os alunos, a fim de deixá-los à vontade para expressar suas reais opiniões, sem serem julgados por isso.

Essa preocupação se deu, pois cada aluno traz consigo uma bagagem cultural e ideológica, que vem, em grande parte, do convívio familiar. Dessa forma, era necessário aceitarmos o que eles tinham a dizer e não cortar tais ideias de maneira abrupta, isso causaria um impacto negativo. O nosso papel, enquanto mediadoras da conversa, era lançar ideias que levassem os alunos a refletirem sobre a sociedade em que vivem e, por meio das suas próprias reflexões, desconstruírem conceitos interiorizados culturalmente.

O trabalho se desenrolou por alguns meses e foi bem gratificante ver como depois de papos interessantíssimos, de experiências narradas, de medos e inseguranças compartilhados, a visão de muitos daqueles alunos que olharam desconfiados para o tema de início se modificou para um olhar mais empático e mais questionador perante a sociedade. Ao final das discussões, os alunos produziram textos dissertativos-argumentativos sobre o tema tratado. Deixo, aqui, trechos de três produções:

“Na atual sociedade capitalista, prossegue o argumento da diferença biológica como base para a desigualdade entre gêneros. As mulheres são vistas como menos capazes que os homens. Assim, mesmo com um maior comparecimento no mercado de trabalho, a desigualdade continua. (…) é preciso combater a cultura machista na sociedade para melhorar o acesso feminino a postos de trabalho e cargos elegíveis e para concretizar o direito da mulher sobre seu próprio corpo e sobre sua liberdade individual. ” L.  B. , 17 anos

 

“A desigualdade entre os gêneros tem sido completamente ignorada por muitos. O fato de ser raro existir uma chefe de uma imensa multinacional é mais comum do que podemos imaginar. Em contrapartida, homens que justificam uma violação do corpo feminino como “com aquelas roupas, era como se ela pedisse” tem sido o modo mais popular de se glamourizar o estupro. Se fosse enraizado que cada um, ao longo da vida, terá uma mulher querida sofrendo esse tipo de abuso, seríamos tão coniventes com essa situação? ” R. L. S., 17 anos

 

“Numa sociedade pós- revolução, a luta das mulheres ainda persiste, nas cidades, nas ruas, em seus empregos. Ao caminharem por parques e vias, olhares maliciosos as alvejam, em seus empregos sofrem, ainda com grande frequência, com discriminações, tanto intelectuais quanto financeiras. Partindo da infância, nas escolas e nas famílias são que as barreiras devem ser quebradas, a igualdade que existe deve ser afirmada, para que, no futuro, as barreiras venham a não existir.” M. H. P. B., 17 anos

 

Por que trabalhar diversidade na escola?

A escola deve ser o lugar do incentivo ao diálogo, ao questionamento, à criticidade e ao convívio com a diferença em suas diversas manifestações. É o seu papel, enquanto formadora de cidadãos, a busca pela desnaturalização de atitudes e pensamentos nocivos e pela construção de novas formas de relações.

O contexto escolar é o primeiro ambiente social heterogêneo, no qual a criança é inserida. É nele que ela aprende a reconhecer o outro, as diversas formas de se colocar no mundo, de sentir, de agir, é onde a criança passa, efetivamente, a conviver com as diversidades.

Quando o aluno adquire realmente a percepção de que o outro existe e de que esse outro é diferente, percebe que a diferença é vital, passa a respeitá-la, a refletir sobre ela e a questionar preconceitos existentes e suas consequências, tais como bullying e violência.

Durante o desenvolvimento do nosso trabalho, entretanto, percebemos que as escolas, em geral, não refletem sobre os impactos dos estereótipos nocivos de gênero em nossa sociedade e, ao não refletirem e dialogarem sobre essas questões, acabam propagando a desigualdade de gênero e os dispositivos masculinos e femininos arraigados. O silenciamento é uma forma de concordância e propagação da norma.
Discutir estereótipos e igualdade de gênero na educação garante às meninas, por exemplo, maior liberdade e autonomia para se colocarem no mundo de forma igualitária, com seus direitos garantidos. Essa discussão possibilita a desconstrução de estereótipos nocivos naturalizados e propagados em discursos diários, que desempoderam as mulheres de diversas formas, entre elas a desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho e o alto índice de violência cometido contra as mulheres.

Por outro lado, garante aos meninos a possibilidade de expressarem livremente sentimentos que os constituem enquanto seres humanos, tais como tristeza, afeto, amor, medo, etc. Possibilidade que é, em grande medida, tolhida deles, por terem de seguir, cada vez mais cedo, o script do “ser macho” e não demonstrar sentimentos e fraquezas.

É de extrema importância que os assuntos relacionados à diversidade sejam discutidos de forma pontual em sala de aula, por meio de projetos, textos ou vídeos motivadores, em forma de rodas de papo, assembleias, etc. Entretanto é de extrema importância que os valores sejam construídos com os alunos diariamente, que os exemplos se tornem prática. Assim, os educadores, por sua vez, devem estar atentos a manifestações de desigualdade em atividades desenvolvidas em sala de aula, o trabalho em grupo é um excelente palco para observar se essas relações de hierarquia existem e, em caso positivo, buscar formas de levar os alunos a refletir sobre esse ato nocivo.

Além disso, os professores devem também estar atentos a como eles próprios disseminam e naturalizam o sexismo dentro do ambiente escolar. Falas como: “pare de chorar e lide com a situação como um homem” – para meninos que tiveram alguma frustação, ou “essa menina é muito masculinizada” – para a aluna que gosta de jogar futebol, ou mesmo as brincadeiras e jogos que segregam meninos e meninas e determinam desde cedo quais os lugares destinados a eles e quais os lugares destinados a elas (meninos brincando ao livre e meninas brincando de casinha, por exemplo), devem ser repensadas e desnaturalizadas.

Como diz Paulo Freire, “educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante”, a educação se dá, em grande parte, por meio dos exemplos. Os nossos valores são construídos no cotidiano por meio de vivências. E o papel do professor carrega um peso marcante na formação dos indivíduos.

A ideia de compartilhar essa visão é sensibilizar para o poder que a educação tem de perpetuação ou desconstrução de ideais que nos estão arraigados.

Falar sobre equidade e identidade de gênero, orientação sexual, preconceito, enfim, falar sobre diversidade na escola é ensinar sobre o reconhecimento do outro, é mostrar que as diferenças existem, são constitutivas dos seres e que devem ser olhadas com respeito.

 

Isso é formar com humanidade.

 

Aliás, esse tema será abordado na nossa roda de conversa do dia 17/08. Se quiser saber mais é só clicar aqui: http://ccli.cclinet.com.br/normose

 

 

Por Thaisa Person | Co-fundadora do Dialogue, educadora e mestranda em Teorias da Adaptação e Teoria da Literatura.

 

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