“Five Came Back” (2017): A Segunda Guerra Mundial vista e revista pelas lentes das câmeras do cinema

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A Segunda Guerra e suas adaptações

A Segunda Guerra Mundial é um dos maiores eventos históricos da humanidade, e é justamente por isso que este tema foi praticamente esgotado em adaptações artísticas que tentam descrever a imensidão e caos desse período. Vemos ecos deste período nos dias de hoje, como as recentes obras: i) no cinema, com “O jogo da imitação” (2014), “Corações de Ferro” (2014), “Até o último homem” (2016); ii) nos livros, com “A menina que roubava livros” (2005), “O menino do pijama listrado” (2006), “Éramos jovens na guerra” (2014); iii) em séries de TV, com “Band of Brothers” (2001), “The Pacific” (2010), “The man in the high castle” (2015); iv) em games, com as séries “Medal of Honor”, “Battlefield” e “Call of Duty”; v) em quadrinhos, como “Maus” (1980) e “Jambocks!” (2010); entre outras plataformas artísticas.

Mas, em especial, no caso do cinema e das séries, que é o foco deste texto, temos uma infinidade de obras deste período histórico que se desenvolvem em diversos gêneros e subgêneros. À exemplo disso, temos obras mais afastadas da realidade histórica, como “Bastardos Inglórios” (2009) e “The man in the high castle” (2015); temos obras biográficas como “A lista de Schindler” (1993) e “Band of Brothers” (2001); temos obras que focam o campo de guerra, como  “Além da linha vermelha” (1998) e “O Resgate do Soldado Ryan” (1998); temos obras mais focadas em dramas pessoais, como “O pianista” (2002) e “O menino do pijama listrado” (2008); e, até mesmo, obra dos bastidores da guerra, como “O jogo da imitação” (2014) e “Operação Valquíria” (2008).

Entretanto, ao partirmos do pressuposto da existência dessa incrível quantidade de obras que inundam os cinemas e a TV até hoje, a todo momento, é necessário fazermos algumas perguntas, como o que era produzido artisticamente durante a Guerra? O que os grandes centros artísticos, como Hollywood, estavam fazendo de 1935 a 1945? Aonde os grandes astros do cinema estavam nesse período? E os grandes diretores? É justamente essas perguntas que a série documental “Five Came Back” (“Cinco voltaram”, em tradução livre) tenta responder. Mas antes de adentrarmos na série, acho que precisamos refletir um pouco mais sobre o papel do cinema em nossa sociedade para entender mais afundo o que a série documental pretende transmitir.

O cinema e a sociedade

Apesar de ser uma arte relativamente nova, se levarmos em conta a sua recente criação no fim do século XIX, o cinema é algo intrínseco à nossa sociedade. Talvez, o fato de sua inserção instantânea em nossa cultura se dê por conta de seu caráter popular, já que qualquer pessoa pode assistir um filme, sendo essa pessoa alfabetizada ou não; talvez, esse mesmo fato se dê por conta de sua rentabilidade, uma vez que, diferentemente do teatro, o cinema permite sessões simultâneas do mesmo filme ao redor do mundo todo, que podem ser reiniciadas tão pronto a anterior acaba; além, claro, de sua capacidade de reprodução, em cópias digitais e serviços de streaming, por exemplo. Talvez, ainda, seja pelo fato de que em uma sociedade moderna como a que nos vemos inseridos desde o século XIX, extremamente acelerada e dinâmica, o cinema seja a arte que mais se encaixe ao nosso estilo de vida, uma vez que sua contemplação exija menos ou mais de 120 minutos de nosso dia. Podemos pensar, talvez, que a boa recepção da sétima arte, tenha se dado, na verdade, pela junção de todos esses motivos.

Pegando, então, essa força cultural que o cinema tem hoje para nós e transpondo aos anos 30 e 40, por exemplo, teremos que não haviam serviços de streaming, youtube e nem televisões, o que fazia das salas de cinema o único local onde as pessoas conseguiriam imagens reais de acontecimentos recentes. Além disso, acabamos por ver no cinema um ponto de encontros, em que as pessoas iam regularmente com suas famílias, namorados e amigos, ou seja, era onde a vida social da época se concentrava, o cinema exercia muita influência na vida das pessoas, afinal, para o grande público, a imagem em movimento representava a realidade, então tudo o que era exibido nas telas só poderia ser a realidade em si.

Agora, junte a esse contexto de forte influência do cinema na vida da população com uma era de extremos, como a que se encontrava nas mesmas duas décadas supracitadas, e teremos um resultado que não poderia ser outro: o cinema era a melhor forma de influenciar os posicionamentos políticos do povo. À exemplo dessa influência usada como propaganda, quando F. Roosevelt, presidente dos Estados Unidos na virada dos anos 30 para os 40, não conseguiu apoio da população para entrar na Segunda Guerra, foi o cinema quem trouxe para o cotidiano das pessoas uma propaganda belicista incontornável, com seus cinejornais que eram exibidos antes das sessões dos filmes, por exemplo, ou até mesmo com filmes e documentários pró entrada dos EUA na Guerra. Esse panorama social é justamente um dos enfoques que teremos em “Five Came Back”.

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Sinopse

A série documental original Netflix “Five Came Back”, divididaem três episódios de aproximadamente uma hora cada um, é baseada em um livro homônimo do jornalista Mark Harris. A produção da Netflix conta com a narração da premiadíssima atriz Meryl Streep e com a presença de cinco grandes cineastas da história do cinema contemporâneo: Guillermo del Toro (diretor de “O Labirinto do Fauno”, 2006), Francis Ford Coppola (diretor da trilogia “O Poderoso Chefão”), Paul Greengrass (diretor de “Supremacia Bourne”, 2004), Lawrence Kasdan (roteirista de “Star Wars V: O império contra-ataca”, 1980) e Steven Spielberg (diretor de “A Lista de Schindler”, 1993).

Todas essas importantes figuras irão comentar a história dos cinco grandes cineastas de Hollywood da década de 30, 40 e 50 que se alistaram no exército dos Estados Unidos da América para filmarem a Segunda Guerra Mundial; são eles: Frank Capra, John Ford, John Huston, George Stevens e William Wyler. Estes diretores, que já eram consagrados antes da eclosão da Guerra, vão para o campo de batalha em busca de fazer propaganda pró-EUA e diminuir o adversário. Fazia parte do trabalho deles elaborar cinejornais para serem exibidos antes dos filmes, além de criar documentários descrevendo a guerra. Consequentemente, as principais imagens que temos da Segunda Guerra Mundial vieram das lentes das câmeras desses cineastas.

Quem eram os cinco?

Frank Capra, John Ford, John Huston, George Stevens e William Wyler foram responsáveis por obras memoráveis da história do cinema, mas suas carreiras foram fragmentadas em pré-Guerra e pós-Guerra. John Ford voltou baleado e com problemas de alcoolismo devido ao que viu no Dia D, o dia do desembarque das tropas dos países aliados na Normandia; Wyler voltou surdo por complicações ao tentar documentar aviões estadunidenses; Stevens era um rei da comédia antes da Guerra, mas foi o primeiro a filmar um campo de concentração e nunca mais produziu uma comédia depois disso; Capra começou uma sequência intitulada “Prelúdio para a Guerra” em que abordou, ao longo de sete documentários, a Guerra, mas após essa série, ele fez o filme “A Felicidade não se compra” (1946) em que ele questiona seu lugar no mundo; e John Huston fez o primeiro documentário sobre trauma pós-Guerra do cinema, e foi proibido de lançá-lo no cinema ao longo de 40 anos, pois não era positivo para a imagem dos Estados Unidos.

Com isso, vemos uma mudança significativa na visão de mundo destes cinco diretores por conta de suas experiências no campo de batalha. Lançaram-se sim para a Guerra com o intuito de propagar um sentimento nacionalista estadunidense, mas o que encontraram foi tamanha barbárie que encontramos um forte cunho anti-belicista em suas obras posteriores à Guerra. Essa questão da fragmentação do ponto de vista fica ainda mais clara quando comparamos os últimos filmes que fizeram antes de se alistarem com os primeiros  filmes que fizeram depois que retornaram para os EUA; estes eram, em sua maioria, filmes existenciais, que indagavam sobre qual o lugar do homem no mundo, oque é a experiência de uma guerra para o ser humano, qual o valor daqueles que amamos, entre tantas outras questões.

Todos os cinco diretores que foram pra Guerra receberam o Oscar de melhor direção em algum momento de suas vidas, muitos deles receberam mais de uma vez o prêmio, e, na grande maioria das vezes, foi depois de 1945. Estes mesmos cinco cineastas contribuíram significativamente para a história ao trazerem para nós, em pleno 2017, as imagens daquela época, e mais importante ainda, os pensamentos daquela época. Vamos encontrar nestes documentários nacionalismos, xenofobia, existencialismos, denúncias, descrenças e uma visão da Guerra de quem está na Guerra. Mas conforme avançamos para 1945, vemos as obras deles perdendo cada vez mais a ideia de confronto, e indo de encontro com a culpa, a perda e a desilusão.

As lentes de “Five Came Back”

“Five Came Back” acaba sendo uma série documental que traz consigo uma carga emocional indispensável, uma vez que o tema tratado é a Segunda Guerra Mundial. Ao contrapor cinco grandes cineastas da época com cinco grandes da contemporaneidade, temos uma visão panorâmica do pensamento humano sobre um mesmo tema. Ainda mais quando pensamos que estes cinco cineastas da atualidade já criaramfilmes sobre guerras, e conseguimos ver o quanto beberam da fonte dos grandes mestres do passado.

Sendo assim, esta série documental se torna indispensável àqueles que apreciam o cinema tanto quanto apreciam a história. O modo como a obra trata os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, ligando-os à vida dos diretores e às suas lentes, suas imagens, seus filmes, é de tamanha sensibilidade que não poderia ter resultado mais incrível do que o visto nas três horas de “Five Came Back”.

legenda Alexandre

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