“Meio Sol Amarelo”: resultados do imperialismo em Nigéria

 

Você conhece Nollywood?
Atualmente, se falarmos em cinema e em África, temos que, indispensavelmente, citar um acontecimento cultural que está em curso nesse continente, e em especial, na Nigéria. Hoje, o maior centro produtor de filmes do mundo está bem longe da Hollywood norteamericana e da Bollywood indiana. Digamos que ela se encontra, mais especificamente, na Costa Ocidental da África. Conhecida como Nollywood, a Nigéria já ultrapassou os dois grandes centros cinematográficos do mundo, em questão de produção. Todo esse processo faz com que muitas indústrias de cinema migrem para lá, de modo que os filmes africanos, além de terem seus direitos de distribuição comprados por indústrias internacionais, ainda comecem a entrar com força no cenário mundial de cinema.

Poderia citar e discutir vários desses filmes que desde 2012 começaram a invadir os grandes festivais de cinema, como “Timbuktu” (2014), “Barco da Esperança” (2012) e “Virgem Margarida” (2012), mas o foco, em especial deste texto, é discutir um título em especial: “Meio sol amarelo”, de 2013. O que vale ressaltar, de início, sobre esse filme, é que ele segue um padrão que também é bem típico dessa nova onda de filmes africanos, que é o fato dele ser uma adaptação de uma obra literária. Muitos dos filmes que surgem nesse contexto vêm justamente de obras de escritores contemporâneos, em sua maioria, africanos. Um outro bom exemplo desse contexto citado é o filme “Beasts of no nation” (2015) que, por mais que seja uma produção norte-americana (Netflix), ele conta com alguns atores africanos, e é baseada em uma obra do escritor nigeriano Uzodinma Iweala.

12123372434_3f066af1df_bA obra cinematográfica “Meio Sol Amarelo”
Enfim, partindo de fato para o que nos interessa, o filme “Meio sol amarelo” (cujo título faz referência à bandeira de Biafra) é uma adaptação do livro homônimo escrito pela consagrada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. O filme conta com a direção e roteiro de Biyi Bandele, outro nigeriano, formado em artes plásticas, poeta e também cineasta. Até aqui, podemos ver como uma obra cinematográfica (que ainda nem começamos a discutir de fato) desconstrói completamente qualquer visão estereotipada e superficial de um continente africano tido apenas como imensas savanas, tribos pobres, miséria e fome. Mas estes aspectos serão melhor trabalhados conforme a análise do filme for caminhando. Para finalizar os aspectos de produção do filme, a obra cinematográfica ainda conta com grandes nomes no elenco, como Chiwetel Ejiofor (protagonista de “12 anos de escravidão”), Genevieve Nnaji (famosa atriz e cantora nigeriana), John Boyega (protagonista de “Star Wars: o despertar da força”) e Anika Noni Rose (premiada atriz teatral norte americana).

Os resultados do imperialismo na África
O filme tem como enredo a história da Guerra Civil Nigeriana, que ocorreu entre os anos de 1967 e 1970, onde parte do país queria se emancipar, criando assim a República autoproclamada do Biafra. Para entender o conflito, precisamos retomar conceitos como Imperialismo Europeu, neocolonialismo e partilha da África, uma vez que as grandes potências do final do século XIX repartiram o continente em questão, no Congresso de Berlim de 1885, juntando, em um mesmo país africano, diversas etnias que viviam cada uma a sua maneira, obrigando elas a conviverem juntas forçadamente. Quando temos, em meados da década de 60, já no século XX, um primeiro processo de independências desses países africanos, há um novo conflito, que não é mais entre “colônia x metrópole”, mas sim um conflito entre as etnias de um mesmo país. Foi assim em vários países da África, como em Ruanda, no Congo e na Nigéria. O que o filme retrata é justamente este período em que o conflito “colônia x metrópole” dá lugar ao conflito de etnias. No caso da Nigéria, em especial, o conflito era entre Hauçás e Igbos.

Igbos e Hauçás
Os Igbos eram a elite cristã nigeriana, enquanto os  Hauçás eram os muçulmanos que viviam num sistema semi-feudal dentro do país. No ano de 1966, após se libertarem do domínio colonial da Inglaterra, os Igbos dão um golpe de Estado que durou apenas seis meses, pois os Hauçás deram um contra-golpe e massacraram mais de 300 mil Igbos. Estes acabaram fugindo para a região sudeste do país e, em 1967, proclamaram a República de Biafra. É justamente nesse contexto histórico que o filme se encaixa, uma vez que acompanharemos a protagonista Olanna (Thandie Newton), uma Igbo, de família rica, que larga sua irmã gêmea Kainene (Anika Noni Rose) e todo o legado de sua família para lecionar numa pequena cidade da região de Biafra, e, desse modo, ficar junto de seu amante Odenigbo (Chiwetel Ejiofor), um professor universitário dito comunista, mas que comete várias contradições quanto às suas ideologias de igualdade. Para fechar o cerco de personagens, temos Ogwu (John Boyega), um camponês contratado para trabalhar na casa de Odenigbo, e Richard (Joseph Mawle), um europeu apático e extremamente alheio ao seu contexto.

Por fim, o filme nos serve como uma reflexão, para além dos dramas pessoais dos personagens, de todo o processo de neocolonialismo c como estopim para todas as guerras civis e processo de miséria que se encontram várias regiões do continente africano. No filme, ainda é possível  testemunhar um dos mais cruéis massacres do pós-Segunda Guerra, em que mais de três milhões de pessoas haviam morrido, graças à miséria causada pelo cerco do exército nigeriano, ,evitando que alimentos, medicinas e armamento chegassem à Biafra. A guerra em questão foi o primeiro grande conflito da África pós-descolonização e o primeiro grande conflito bélico a ter cobertura da mídia na história.

Por Alexandre Cristiano Baldacin | Graduando em Letras, amante de História e viciado em Netflix

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *