Por que assistir “Pantera Negra”?

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Por que assistir “Pantera Negra”?

Por que deveríamos assistir ao filme “Pantera Negra” nos cinemas a partir da semana que vem, dia 15 de fevereiro de 2018? Talvez por ser o próximo e tão aguardado filme do Universo Cinematográfico da Marvel; talvez por ser aquele que precede o grandioso “Vingadores: Guerra Infinita”; talvez por ser “o primeiro filme de um super-herói negro”. Na verdade, não é por nenhum desses motivos, inclusive, ao contrário do que muitos pensam, “Pantera Negra” não é o primeiro longa-metragem de um super-herói negro; antes dele, vieram “Aço” (1997), “Blade” (1998, 2002 e 2004) e “Mulher-Gato” (2004), só para citar os mais conhecidos. Mas afinal, por quais motivos devemos assistir a este filme?

Contexto: protestos e boicotes

Há, na verdade, uma série de motivos que respondem a essa pergunta. Entretanto, optamos por começar com aquele em que há pessoas que não querem que você vá assistir ao filme. Antes mesmo da sua premiere, no Dolby Theatre, em Los Angeles (EUA), 29 de janeiro, “Pantera Negra” já estava passando por dois processos de protesto/boicote.

O primeiro deles estava ligado às denúncias recentes de assédio sexual que envolviam Stan Lee, o criador do personagem (e de tantos outros da Marvel), e produtor executivo de todos os filmes da Marvel Studios. O segundo envolvia “fãs” da DC Comics, que queriam abaixar a nota do filme em um dos principais sites de cinema, o Rotten Tomatoes, que serve de termômetro e referência para a sociedade estadunidense.

A questão aqui não é a validade dos protestos e boicotes, mas sim contra quem e como estão direcionados. Só para fazer uma analogia, na temporada de filmes 2016/2017, houve o lançamento de uma obra chamada “O nascimento de uma nação” (2016), cujo título se refere ao primeiro longa-metragem da história do cinema (“O nascimento de uma nação”, de 1915, dirigido pelo diretor D.W. Griffith); entretanto, o fato de terem o mesmo nome é uma crítica direta ao antecessor, uma vez que o filme de 1915 defendia a Ku Klux Klan, e o de 2016 (basicamente “comemorando” o centenário do longa de Griffith) é uma obra que valorizava o discurso do Movimento Negro, a partir da figura histórica de Nat Turner.

Pôster do filme "O nascimento de uma nação", de 2016.
Pôster do filme “O nascimento de uma nação”, de 2016.
Pôster do filme "O nascimento de uma nação", de 1915.
Pôster do filme “O nascimento de uma nação”, de 1915.

Entretanto, o ator, diretor e produtor do filme de 2016, Nate Parker, após ganhar o festival de Sundance, teve uma história de seu passado revelada. A revista de cinema Variety revelou que Parker havia se envolvido em um caso de abuso sexual durante a faculdade, sendo inocentado tempo depois. Porém, a garota, que não teve seu nome revelado, acabou se suicidando anos depois, em 2012. A partir disso, o filme passou a sofrer duras críticas, e vários votantes do Oscar disseram que não iriam nem mesmo assistir ao filme.

Tudo certo até este ponto. Um protesto bem fundamentado em questões de gênero por parte da Academia do Oscar. Porém, no mesmo ano, Casey Affleck levou o Oscar de Melhor Ator pelo filme “Manchester a beira-mar” (2016), mesmo  tendo sido acusado de abuso sexual no ano de 2012. Ou seja, o que era uma questão de gênero, baseada no sexismo da Indústria de Hollywood, passou a ser uma questão racial, isso um ano após a tag #OscarSoWhite ter surgido por falta de representatividade na maior premiação do cinema ocidental.

Em algum nível, o que aconteceu com “Pantera Negra” tem as mesmas raízes desse acontecimento supracitado. Os boicotes e protestos teriam muito mais força caso tivessem sido feitos contra “Vingadores: Guerra Infinita”, que será lançado em abril, e cuja visibilidade é maior justamente por ser o filme que resume todos os 10 anos de Universo Cinematográfico da Marvel, juntando todos os seus heróis na mesma tela. Porém, como historicamente acontece, os filmes prejudicados são aqueles cuja importância social são mais latentes, neste caso, reforçando o racismo com aquele que, antes mesmo de seu lançamento, já é um dos filmes mais representativos de toda a história de Hollywood.

Pantera Negra e os quadrinhos

O Pantera Negra pode não ser o primeiro super-herói negro a ganhar seu longa-metragem próprio, mas foi o primeiro a existir nas páginas dos quadrinhos, pelas mãos da dupla Stan Lee e Jack Kirby. O personagem surge em uma HQ do Quarteto Fantástico, no ano de 1966, e somos apresentados a um país fictício da África, intocado pelo Imperialismo europeu (Wakanda), sendo esse a maior potência do mundo. Além disso, o protagonista africano possui uma guarda real formada inteiramente por mulheres guerreiras, as Dora Milaje, quebrando qualquer paradigma provável.

Capa da primeira HQ em que o Pantera Negra surge, em julho de 1966.
Capa da primeira HQ em que o Pantera Negra surge, em julho de 1966.

Isso diz muito acerca do quão representativo e importante é a criação do Pantera Negra, ainda mais se levarmos em consideração a época em que o personagem surge: em 1960, o continente africano vivia o chamado “Ano Africano”, em que 17 países se tornavam independentes do neocolonialismo. E isso seguiria ao longo de toda a década, com cruéis guerras de independência, em que metrópoles como França e Portugal levariam os conflitos às últimas consequências, como é o caso de Angola e Argélia.

Logo, a criação do país de Wakanda como sendo a maior potência do mundo, em desenvolvimento humano, em economia e em tecnologia, é uma dura crítica ao sistema eurocêntrico positivista que dominou fins do século XIX até metade do XX. É como se o Pantera Negra nos apresentasse como seria o continente africano caso ele tivesse seguido seu rumo natural: utilizaria suas riquezas naturais (que no enredo de Pantera Negra é o metal raro vibranium) para seu próprio desenvolvimento, fortemente fundamentado em culturas tradicionais bem estabelecidas, com fronteiras étnicas respeitadas, e com uma visão de mundo única, fugindo da ocidental.

Arte conceitual do filme "Pantera Negra" (2018). Visão afrofuturista da cidade de Wakanda.
Arte conceitual do filme “Pantera Negra” (2018). Visão afrofuturista da cidade de Wakanda.

Inclusive, na saga mais recente do Pantera Negra nos quadrinhos, “Uma nação sobre nossos pés” (2016), escrita pelo premiado jornalista e escritor Ta-Nehisi Coates e ilustrada pelo também premiado Brian Stelfreeze, vemos todas estas questões muito mais escancaradas do que quando o personagem surgiu nos anos 60. As culturas africanas estão presentes em cada página do quadrinho, seja por meio de termos e expressões em idiomas autóctones, seja por meio de figuras tradicionais das culturas afros, como o Griot, ou seja por meio de questões culturais relacionadas à religião, à noção de vida e morte, que é ímpar nas culturas africanas, e à ideia de nação e etnia.

Última saga do Pantera Negra, "Uma nação sob nossos pés", de 2016.
Última saga do Pantera Negra, “Uma nação sob nossos pés”, de 2016.

Produção do filme 

“Pantera Negra” tem no cuidado de sua produção seu principal êxito. Mesmo antes de o assistirmos, é fácil afirmar que o filme é um marco, tanto no Universo Cinematográfico da Marvel, quanto nas produções hollywoodianas em geral. Se refletirmos um pouco sobre a questão da representatividade, por exemplo, perceberemos aquilo que pode ser a sua maior importância (maior ainda que todos os pontos levantados até o momento): basicamente toda a produção do filme é negra, incluindo o diretor, o roteirista, uma gigantesca parte do elenco, além de outras presenças importantes.

O filme é dirigido por Ryan Coogler, cujos trabalhos anteriores também envolvem a temática de questões raciais: “Fruitvale Station” (2013) e “Creed” (2015). Além disso, o diretor afirma ter se influenciado muito pelas culturas africanas, tal qual a saga de quadrinhos citada anteriormente, para a criação do longa. Já nos trailers, isso fica muito explícito, como a presença de máscaras, das vestimentas características, da temática religiosa dos antepassados, das diferenças étnicas entre os grupos, entre tantos outros pontos.

Figurino do filmes "Pantera Negra" (2018).
Figurino do filme “Pantera Negra” (2018).
Máscara tradicional africana representada em cena do trailer de "Pantera Negra" (2018).
Máscara tradicional africana representada em cena do trailer de “Pantera Negra” (2018).
Okoye (Danai Gurira), Nakia (Lupita Nyong'o) e Ayo (Florence Kasumba), todas membro da guarda real de Wakanda, as Dora Milaje.
Okoye (Danai Gurira), Nakia (Lupita Nyong’o) e Ayo (Florence Kasumba), todas membro da guarda real de Wakanda, as Dora Milaje.

Ademais, temos um elenco que historicamente esteve envolvido em obras com temáticas sociais, além de debaterem ativamente dentro das questões dos Movimentos Negros dos Estados Unidos. Muitos desses nomes já são consagrados, como Forest Whitaker (“O último rei da Escócia”, 2006) e Lupita Nyong’o (“12 anos de escravidão”, 2013), ambos vencedores do Oscar; há, ainda, vários outros atores no filme que estão ganhando cada vez mais espaço no cenário internacional, como Michael B. Jordan (“Creed”, 2015 e “Quarteto fantástico”, 2015), Daniel Kaluuya (“Corra”, 2017) e Danai Gurira (“The Walking Dead”, 2010 – atualmente), além do protagonista Chadwick Boseman (“Get on up: a história de James Brown”, 2014 e “Capitão América: Guerra Civil”, 2016).

Ainda, temos, no segundo trailer do filme, a narração de um poema em prosa de Gil Scott-Heron, “The revolution will not be televised”, em que o autor diz que a revolução não será televisionada, pois quem está no poder não deixaria, em um tom que convoca todos a protestarem. Nesta , ele se refere não só ao movimento negro, mas a todos os conflitos que os EUA dos anos 60 e 70 estava envolvido. Em seguida, no mesmo trailer, temos uma música do rapper estadunidense Vince Staples, cuja temática é a violência policial. E, por fim, temos o premiado rapper americano Kendrick Lamar fazendo a trilha sonora original do filme. Ou seja, a cada anúncio ou propaganda do filme do “Pantera Negra”, ele se torna mais e mais político, isso tudo sem ao menos entrarmos em seu enredo.

Conclusão

Dessa forma, podemos ver como o “Pantera Negra” é um dos filmes mais politicos do ano e da história do cinema de super-heróis. Mas também não poderia ser diferente. Ao nascer em julho de 1966, três meses antes do grupo político dos Panteras Negras, o super-heroi africano representa o zeitgeist (o espírito de uma época) dos anos 60 para o Movimento Negro. Esses poucos meses que separam o personagem de uma influência direta do grupo acaba por criar, na verdade, uma situação cômica do acaso. Tanto que a Marvel, com medo de ser associada ao partido político, mudou o nome do personagem para “Leopardo Negro”, entretanto, o acaso e a história fizeram questão de marcar o nome do personagem para sempre como “Pantera Negra”.

Desde então, é quase indissociável a imagem do herói africano, o primeiro personagem negro a ter super-poderes, chefe da maior nação do mundo – que é africana – ao partido político que lutou pela igualdade racial nos Estados Unidos. Ryan Coogler fez questão de reforçar este ponto ao lançar o primeiro pôster do filme reproduzindo uma icônica imagem dos Panteras Negras. Assim, por todas estas questões, assistir ao filme no cinema é mais que um simples entretenimento, é um ato político, é financiar a representatividade.

Primeiro pôster do filme "Pantera Negra" (2018), referenciando a imagem icônica dos Panteras Negras.
Primeiro pôster do filme “Pantera Negra” (2018), referenciando a imagem icônica de Huey Newton, dos Panteras Negras.
Imagem icônica de Huey Newton, um dos líder dos Panteras Negras.
Imagem icônica de Huey Newton, um dos líder dos Panteras Negras.

legenda Alexandre

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