Porque “Parasita” (2019) quebrou tantas barreiras?

Em 91 anos de Oscar – que, para muitos, é a mais famosa premiação do cinema – os vencedores de melhor filme sempre eram em língua inglesa, seja estadunidense, seja britânico. Havia uma outra regra também: quando um filme falado em língua não-inglesa era muito bom, ele era indicado a Melhor Filme e a Melhor Filme Estrangeiro, levando apenas esse segundo prêmio, como se fosse uma menção honrosa o nome dele na principal categoria de melhor obra geral daquele ano. 

Eis que em 2020 tudo isso que expliquei acima foi quebrado. A edição de número 92 da premiação vai entrar para a história do cinema, porque a Academia do Oscar, quase uma década depois de seu nascimento, premiou um filme não falado em língua inglesa como o Melhor Filme. “Parasita” quebrou barreiras nunca antes imaginadas. O nada menos que genial Bong Joon-ho (“Expresso do Amanha” e “Okja”), diretor de “Parasita”, disse em uma premiação anterior (o Globo de Ouro) que “quando os estadunidenses começassem a ler legendas, eles conheceriam um mundo completamente novo no cinema”. E parece que essa alfabetização em legendas começou em Hollywood…

“Parasita” é uma obra singular, daquelas pérolas raras, em que temos uma temática universal e reconhecível em qualquer local do mundo, mas a partir de um ponto de vista de uma sociedade específica, algo mais localizado, particular. Neste sentido, a obra sul-coreana se assemelha (e muito) à obra brasileira “Bacurau”, em que temos o mesmo contexto: algo universal a partir de uma visão particular.

Enquanto na obra sulamericana temos uma luta de classes no sertão nordestino “distópico”, na obra asiática temos a luta de classes no contexto de uma metrópole coreana. A família de Ki-woo (Choi Woo-shik) é o extrato do extrato da sociedade, marginal à tudo, vivendo, inclusive

Poster do filme "Parasita" (2019).
Poster do filme “Parasita” (2019).

(e literalmente) abaixo do resto da sociedade. Mas vê sua realidade mudar quando começa a trabalhar para uma família muito rica (de novo, literalmente, vivendo acima de todos).

Sem adentrar mais no enredo para não estragar surpresas, o que precisam saber é que o magistral diretor Bong Joon-ho nos conta essa história a partir de uma perspectiva que ultrapassa a ideia de gênero cinematográfico específico. Ele usa o que for necessário naquele momento para passar o sentimento e a sensação que a narrativa precisa. Assim, temos que o filme começa com uma comédia ácida, passa por uma comédia pastelão, ganha tons de suspense, chega ao terror, e termina com um drama dos mais absurdos. Tudo isso muitíssimo bem amparado por atuações dignas de nota, e por uma edição, trilha sonora e fotografia que também vão se adaptando, sempre com a finalidade narrativa.

No final das contas, “Parasita” é um presente para os amantes do cinema e de uma boa história. Nos imerge segundo a segundo em sua trama, fazendo com que os mais inacreditáveis absurdos vão se tornando, pouco a pouco, verossímeis, e que, com isso, a desigualdade vá emergindo, mais latente a cada momento.

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