VIRGEM DEPOIS DOS 30

Um em cada quatro homens solteiros no Japão nunca tiveram qualquer tipo de relação sexual; ao todo, são mais de dois milhões de virgens em todo o país. Um número altíssimo e que, a princípio, pode não nos dizer muita coisa, senão que as pessoas não estão se relacionando sexualmente na terra do sol nascente. Entretanto, Atsuhiko Nakamura nos apresenta uma nova visão sobre este contexto ao nos dizer que esse alto índice de castidade compulsória vem gerando fortes problemas sociais; ou seja, não é apenas uma questão sexual, mas sim um complexo fator decorrente de uma virgindade forçada pela sociedade das mais diversas maneiras possíveis.

 Nakamura (Tóquio, 1972) é escritor e ficou famoso após publicar uma trilogia de livros de entrevistas com garotas que viviam da indústria pornô japonesa. Depois disso, o autor viveu uma fase difícil de sua vida e acabou no ramo da cuidadoria de idosos. Foi neste contexto em que ele entrou em contato com “os virgens de meia-idade”, termo trazido pelo próprio autor. Bargain Sakuraichi (Osaka, 1964 – verdadeiro nome é Toshifumi Sakurai) foi o responsável por propor a adaptação deste trabalho para os quadrinhos, em 2018, e, em coautoria, os dois lançaram o mangá-documentário “Virgem depois dos 30”. Em 2019, ele chegou ao Brasil pela editora Pipoca e Nanquim, e se tornou a primeira obra do gênero em território nacional. 

Ao adentrarmos nas 244 páginas desta narrativa, encontraremos 8 capítulos que analisarão 9 virgens de meia-idade, que nos são apresentados, em sua maioria, por meio de nomes fictícios. Se engana quem acredita que a obra tem qualquer intenção jocosa em sua proposta: é uma análise séria de uma importante questão social. Entretanto, “Virgem depois dos 30” não apresenta uma proposta de resolução do problema, mas sim escancara a realidade complexa dos diversos motivos para uma pessoa chegar à meia-idade (de 30 a 60 anos) sendo virgem no Japão contemporâneo. 

Quando se fala em “diversos motivos”, é por causa que cada capítulo vai justamente focar em um contexto que pode levar ao celibato forçado. Vamos ter capítulos, por exemplo, em que virgens de meia-idade, ao serem marginalizados, acabam partindo para o discurso de extrema-direita na internet; ou então aqueles que, ao serem afastados do convívio social, se elevam a um nível de otaku – fã de animes – que acabam se apaixonando por personagens em 2D; ou, por fim, aquele que sofreu bullying a vida inteira e acabou por ficar dentro de si mesmo, sem qualquer amizades, e consequente baixa autoestima.

 

Mas, ao serem vítimas da sociedade, eles acabam se tornando, posteriormente, causadores de problemas sociais também. Primeiramente, há uma maior individualização do ser, logo, falta de altruísmo. Esse ponto fica mais explícito nas passagens do mangá em que acompanharemos Sakaguchi, um homem que atinge um cargo médio dentro do ramo de cuidadoria de idosos, e acaba por humilhar todos os estagiários e as estagiárias, gerando um ambiente tóxico, chegando até ao assédio moral.

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Em contraponto, Nakamura complementa dizendo que existem virgens muito inteligentes, que acabam por se dedicar inteiramente aos estudos, pois sua autoestima é baixíssima e eles acabam se refugiando nos livros; teremos também aqueles com baixa escolaridade e com ego elevado, e acreditam que são virgens pois ainda não apareceu nenhuma mulher a sua altura. Este segundo grupo, de acordo com o autor, deflagra mais uma problemática social: por conta da baixa escolaridade, eles se refugiam em subempregos. Já foi citado anteriormente o caso de Sakaguchi, que humilhava os outros funcionários dentro do ramo da cuidadoria de idosos – lembrando que este é o ponto inicial da reflexão do autor por ele ter trabalhado neste contexto –, mas teremos também virgens de meia-idade que vão tentar carreira na indústria pornô, como exemplo de outras profissões de baixo status social no Japão.

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Todo esse processo narrativo vem acompanhado de uma excepcional narrativa gráfica de Sakuraichi. Ele parte de um estilo ora realista, ora cartunesco, mas é justamente para gerar uma subversão no contraste caricatural com o real, e é neste ponto que a narrativa vai nos chocar com mais impacto ainda. Os absurdos narrados, às vezes, fogem tanto do parâmetro de realidade ocidental, que beira o inverossímil. Os traços de Sakuraichi vão justamente escrachar mais ainda os fatos narrados, mas por ser um documentário, saberemos que é real, e é neste momento que o choque de realidades virá com todo o peso. Talvez seja esse o ponto que tenha transformado este quadrinho em um bestseller internacional: a história incrivelmente dura e necessária de Nakamura com a arte perspicaz de Sakuraichi.

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Desse modo, a publicação de “Virgem depois dos 30” no Brasil se faz necessária justamente para conflitarmos esta realidade com a nossa, já que somos o segundo país do mundo em que as pessoas perdem a virgindade mais cedo (na média dos 16-17 anos), ficando atrás apenas da Áustria. Sabendo que a melhor forma de nos conhecermos é a partir do Outro, esse mangá-documentário se faz indispensável aqui.

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